domingo, 11 de outubro de 2009

A terceira dimensão e a quarta parede II

(uma continuação)

2009. Toy Story já tem 14 anos de estrada e o anúncio do terceiro filme da turma de brinquedos malucos já foi feito para 2010. De lá para cá as coisas evoluíram bastante (a Disney até comprou a Pixar, quem diria), especialmente em termos técnicos. Adultos começaram a ir ao cinema para ver animação sozinhos, e deixaram as crianças em casa. Nada de infantilidade ou entretenimento vazio - agora, "narrativa cinematográfica" se aplica tanto a um Almodóvar quanto a John Lasseter, o chefão da Disney/Pixar. O tal fenômeno tem explicações simples - os pais não aguentavam mais filmes musicais que as crianças adoravam e eles bocejavam - e complexas - a animação representa a fuga da realidade em sua máxima essência, por permitir a suspensão da descrença por meios primariamente abstratos como a própria representação gráfica de realidades paralelas e mundos inexistentes. Falando fácil ou difícil, o importante é que o público adulto perdeu a vergonha de comprar ingressos pra matinê dublada, e só vem ganhando com isso.
Três bonitos exemplares da nova geração 3D estão nos cinemas pra quem quiser espiar: Up - Altas Aventuras (Up, dir. Pete Docter e Bob Peterson, Disney/Pixar), Tá Chovendo Hambúrguer (Cloudy with a chance of Meatballs, dir. Phil Lord e Chris Miller, Sony) e 9 - A Salvação (9, dir. Shane Acker, Focus Features).
Três animações de estilos completamente diferentes. Up se aproveita muito bem da rasteira de sucessos consecutivos da Pixar com alta qualidade técnica - é impossível descrever o quanto é difícil fazer balões transparentes e que parecem flutuar de verdade! - e apelo forte para as emoções que só os adultos entendem, como a saudade, a solidão e a velhice. Carl é um velho ranzinza cativante e os 10 primeiros minutos do filme valem lágrimas e risos. Tá Chovendo Hambúrguer já explora um veio essencialmente infantil, do sonho de todo moleque banguela que é o de que, um dia, chova comida do céu. De novo, a Sony, que é novata no ramo, esconde piadinhas ácidas e nerds em vários diálogos, ao mesmo tempo em que enche os olhos com todo tipo de guloseima representada em gráficos tão realistas que dão fome. 9 vai ainda mais longe. Aqui, não há nada para crianças, exceto talvez a moral de salvação do mundo. Não há mais humanos, não há mais vida; só engenhocas macabras que caçam as únicas criaturas capazes de dar continuidade àquilo que os homens não souberam cuidar. A técnica é tão menos impressionante do que a força da mensagem, mesmo que o filme escorregue na superficialidade dos personagens e em outros detalhes.
Sim, nenhum dos três filmes é perfeito, de fato. Há problemas de roteiro, de motivação de personagens, até mesmo de exacerbação da técnica. Mas não custa brincar de ser criança. Ficou curioso como as coisas conseguiram chegar até aqui? Dê uma olhada no trailer de Toy Story 3, a trilogia do grande clássico, e tire suas próprias conclusões.

(com a little help de Omelete, Smelly Cat e IMDB)

*Maíra Testa é colaboradora do Audiovisueiros

A terceira dimensão e a quarta parede I

(ou quem disse que animação é para crianças?)

O cinema, numa época em que ainda era um bocado jovem e desengonçado, teve que aprender a dividir espaço com a animação. Os desenhos de mundos fantasiosos e coloridos do genial Walt Disney quebravam barreiras a cada novo longa, disputando com o cinemão prêmios, bilheteria e prestígio - principalmente pelo apelo infantil numa terra dominada por adultos e melodramas. Em algumas décadas os temidos "sinais dos tempos" começaram a desbancar as princesas e heróis da Disney nas telonas e os trancaram em fitas de VHS que a molecada colecionava em casa. Foi em meados da década de 1990 que a revolução da animação de longa-metragem atingiu em cheio as salas de cinema: Toy Story, a comovente história de um grupo de brinquedos falantes, inaugurou de vez a febre do 3D e a tradição de qualidade técnica dos estúdios da Pixar.
3D significa três dimensões, ou seja, largura, altura e profundidade. Diferente da Branca de Neve colada na tela de outrora, Woody e Buzz eram táteis, uma simulação impressionante do espaço do mundo real. E além das inovações técnicas, surpresa: roteiro. Moral da história, jornada do herói, ah sim, tudo isso - mas o ingrediente especial eram as piadas que só os adultos podiam entender. Animações para as crianças verem e os adultos que as levam se divertirem junto. E no cinema 3D, ah, bom... virou quase tradição.

(continua...)

*Maíra Testa é colaboradora do Audiovisueiros