segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Show de Bola...

Nessa sexta-feira, dia 20, entra em cartaz um filme para quem gosta de futebol e também pra quem não gosta. Ele é “Maradona”, documentário que retrata a vida do polêmico jogador argentino e novo trabalho do diretor sérvio Emir Kusturica. Mas antes de falar do filme, falemos rapidamente sobre Kusturica: ele já recebeu a Palma de Ouro em Cannes duas vezes - em 1985, por “Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios”, e em 1995, por “Underground – Mentiras de Guerra” – e teve a estréia de “Maradona” justamente no mesmo festival, em 2008. Sentiram o peso, né?!
O filme, ao tratar do jogador, acaba abordando uma série de questões polêmicas e provocativas, como drogas, política, futebol e até religião. Algumas vezes, as polêmicas são lançadas pelo próprio diretor, que logo declara Maradona como um Deus – visão apoiada por toda a nação argentina e uma verdadeira alfinetada para nós, brasileiros. Mas por mais que o objetivo fosse registrar depoimentos sobre a versão do próprio Maradona a respeito de sua vida, o filme acaba fazendo mais do que isso: é a busca quase desesperada de um fã. E Kusturica não disfarça, pelo contrário, assume, através de sua própria voz como narração em off, falas em primeira pessoa, o registro de sua imagem em praticamente todos os enquadramentos e na tietagem descarada que pratica ao longo do filme. A primeira cena, na qual ele toca guitarra em um show em Buenos Aires, é um aviso de que ele, e não Maradona, será o personagem principal do filme.
O resultado é quase um vídeo-diário, que registra uma verdadeira jornada, cheia de esforços e sensações, permeados por expectativas e lembranças que Kusturica evoca como um paralelo com a vida do jogador. Dessa forma, “Maradona” deixa de ser somente um documentário sobre um jogador para ser, principalmente, a reflexão síntese de um diretor sobre toda a sua carreira.


*Natália Vestri é colaboradora do Audiovisueiros

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Bastardos Inglórios (Quentin Tarantino, 2009)

Os Bastardos de Tarantino...

Bastardos Inglórios é um filme que teria tudo para ser "tosco" e bobo: um pequeno grupo de soldados denominados "Bastardos" circula pela Europa numa incansável busca por nazistas com o objetivo de derrubar o Terceiro Reich. Entre escalpos e suásticas, o que se vê na tela é um bom filme, uma obra reconhecida e identificada ao seu diretor. A pergunta é: o filme funciona por que sabemos quem o dirigiu? Saber, nesse sentido, quer dizer conhecer o "estilo" e o "método" de Quentin Tarantino. O roteiro, escrito pelo próprio, é o mais esperado por ele, que só sentiu-se pronto para escrever depois de pouco mais de 20 anos de carreira. Os diálogos, escritos em 4 línguas diferentes, são muito bons, com a dose certa de ironia e humor; os personagens são fortes completados por uma interpretação que beira o não-realismo: Christoph Waltz no papel do coronel nazista Hans Landa é um dos melhores, pena que a resolução de sua história, feita de forma simplificada e rápida, não esteja a sua altura; e Melanie Laurent no papel de Shosanna Dreyfus, uma judia que arquiteta o plano de destuição do império nazista, essa sim colocada num final surpreendente e inesperado. Tarantino abusa da metalinguagem e faz um filme dentro do próprio filme, explorando pelas vertentes a política de propaganda do império nazista. Por outro lado, em alguns momentos, o filme se faz extendo e cansativo, com pelo menos duas sequências que poderiam ser cortadas pela metade.
A fotografia, um dos primores do filme é eficiente enquanto linguagem, faz uso primoroso do extra-campo, principalmente na sequência inicial, quando a câmera dá uma volta completa no ambiente e realiza posteriormente um travelling para baixo nos revelando um fato crucial para o desenrolar da história. A trilha sonora, composta por diferentes estilos musicais é um dos pontos altos do filme, que constrói a partir desse pastiche musical os momentos dramáticos mais interessantes. A sequência do massacre na sala de cinema é outro ponto destacável, quando coloca-se na tela o desejo de muitas pessoas no mundo todo, assassinando o alto escalão do partido nazista de forma quase orquestral: inicia o filme (o filme dentro do filme), o cigarro ainda acesso é arremessado, as pessoas se desesperam, o fogo começa e rouba o lugar da tela dando forma ao rosto de Shosanna Dreyfus, quase como um fantasma gargalhando da desgraça nazista. Ao final, o personagem de Brad Pitt, Aldo Raine, após realizar com sucesso seu último feito, olha para a câmera, que representa a subjetiva de Hans Landa, e diz: "Acho que fiz minha obra-prima", seria essa uma fala do próprio diretor? A dúvida permanece...ou não.


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros