quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A internet como ferramenta de publicação e divulgação I

A famosa afirmação de McLuhan, “o meio é a mensagem” , pretendia fazer um contraponto para a leitura tradicional dos meios como simples canais de passagem ou suporte aos conteúdos. A tese de McLuhan é a de que, longe de ser “transparente” ou inerte, o meio influencia a interpretação da mensagem e é determinante para a geração do conteúdo . Lamentavelmente, ele faleceu exatamente no momento do surgimento da Internet, um projeto ambicioso iniciado nos anos 60 e consolidado no início da década de 80 com a adoção do protocolo universal de comunicação entre computadores (TCP/IP).
Talvez a internet não seja a principal criação do momento em que vivemos, mas sem dúvidas representa uma mudança na forma pela qual nos comunicamos e é a demonstração cabal da tese de McLuhan.
Entre palavras como convergência, web, rede de computadores, e-commerce, busca de informação e redes sociais, o que é a internet?
Uma plataforma de entretenimento; uma ferramenta de trabalho; um meio de comunicação? Ela pode ser um pouco de tudo.
O nome completo da internet é public worldwide computer network system , ou seja, é um espaço público que conecta o mundo todo através de uma rede de computadores. Quando esse conceito foi concebido ainda não existiam os dispositivos móveis de acesso. Hoje é possível conectar-se com praticamente qualquer aparelho através de seu protocolo, da geladeira ao televisor, passando por qualquer equipamento capaz de comunicar-se direta ou indiretamente com a rede.
A Internet já faz parte de todas as “indústrias”, não só a da comunicação. Ela participa de nossa vida social, sem dúvidas, mas também esta mudando nossos hábitos de consumo e a forma de se fazer negócio. Sistemas de e-mail, o Google, a Wikipédia, o Msn, as lojas virtuais, os sites de conteúdo e os torrents são só alguns exemplos de como a internet impacta nosso cotidiano pessoal e profissional.
Para a indústria midiática a internet é um importante acontecimento, por ser o centro da convergência das mídias e um espaço onde podemos buscar o feedback dos nossos consumidores e o perfil dos mesmos, além de estabelecer um diálogo de forma nunca antes possível.
Tanto a convergência como o diálogo geram um engajamento do consumidor único, proveniente da liberdade e da comunicação.

*Guilherme Ferrari é colaborador do Audiovisueiros

domingo, 21 de novembro de 2010

Como funciona a decupagem de uma cena? (decupar um roteiro III)

Percebi, através do Google Analytics e dos e-mails que recebemos dos nossos leitores, que o post sobre decupagem é um dos mais acessados. Portanto resolvi dar continuidade ao estudo... Lembrando que os anteriores são bem "básicos", isso porque decupagem é um processe complicado que define todos os aspectos artísticos e até de produção de um audiovisual. Já disse antes mas repito, a decupagem é específica de cada área, ou seja, existe decupagem de produção, de arte, de fotografia... a que expliquei nos outros posts referem-se à decupagem de direção.
para ver as postagens anteriores clique nos link abaixo:

Vou direcionar esse novo post baseado no email que recebi de Paulo Fernando. Ele pediu para que eu fizesse um novo post semelhante ao primeiro.

Para as observações que vou fazer usarei ESSE VÍDEO.
trata-se de uma cena do seriado LOST., e vou comentar, de forma bem simples e sem nenhuma análise dos objetivos da decupagem (deixo isso para os comentários). Analisarei apenas os primeiros 44 segundos, que é a cena do Jack com a aeromoça.


ANÁLISE:
O Primeiro plano é um pequeno traveling para trás que começa da visão de Jack da janela do avião e no moviento apresenta o personagem em primeiro plano. Ainda sem um corte o plano recua até o braço da aeromoça que ocupa o lado esquerdo da , para então cortar para um plano médio dela. No corte vemos que a aeromoça permaneçe no lado esquerdo da tela, definindo assim o EIXO DA CENA. o plano médio da aeromoça é seguido de um corte novamente para o plano fechado iniciando assim o campo e o contra-campo Esse campo/contracampo entre o plano fechado de Jack e o médio da aeromoça é interrompido por um médio de jack que mostra, além do braço da aeromoça ao lado esquerdo da tela, todo o tronco da personagem e o movimento que ela faz para entregar a bebida para Jack, além do carrinho de bordo. Então vem um corte para um fehado da aeromoça, um fechado de Jack, e, depois de cerca de 4 segundos nesse plano, sem nenhum diálogo, com a trilha começando a se destacar adicionando elementos musicais, tem um corte para o médio de jack guardando a garrafa no bolso (no fechado não teríamos visto o movimento pois estaria Fora de Quadro). A cena seguinte, na mesma locação (pode não ser chamada de uma nova cena, e sim apenas da continuação da mesma cena), entra com um corte para outra aeromoça atendendo outra personagem protagonista (Jack e Kate são dois principais da série e aparecem nas 6 temporadas). A aeromoça esta do lado esquerdo da tela, como com a outra aeromoça na cena com Jack.

SOBRE A EXECUÇÃO:
Essa cena pode ser resolvida com três planos diferentes na hora de filmar. Um deles seria o fechado de Jack, que vem da janela. Outro seria o aberto de Jack, que mostra o carrinho parcialmente e o tronco da aeromoça. O terceiro compilaria dois dos planos apresentados pois o operador de câmera teria cerca de 5 segundos para mudar de posição (mas poderiam ter sido filmados os quatro planos separadamente, mas essas produções costumam a ser rápidas durante as graçações então imagino que eles tenham poupado tempo sempre que tiveram a oportunidade.

É isso.
- SPOILER ALERT -
vejo que a cena é bem simples mas ao mesmo tempo tem algumas coisas para analisar, como o porque abrir o plano de Jack para enquadrar o movimento dele guardando a garrafa ao invés de deixar o movimento fora de quadro (o personagem de Jack se revela alcoólatra mais adiante na série). Ou porque depois do mais aberto de Jack temos a primeira aparição do primeiro plano da aeromoça seguido do fechado de Jack (até antes daquele momento a aeromoça estava na cena sem muita importância, então ela decide dar para Jack a garrafa, contra as regras do avião, porque ele comenta que não é uma bebida forte).

Espero que gostem desse post e Obrigado Paulo Fernando, Thuka Dias, PH Backward, Raphael Azevedo, Raphael Felisbino de Jesus, Bruna Campelo, Débora Lima dos Santos, Isabelle Mesquita, Vanessa Melo, Vídeo Produtor, Andréia Santos de Aguiar, Luís Alves, Vagner Villa, Leonardo Lacrod, Laura Borges e Luis Mendes pelos e-mails interessados e todos os seguidores!

*Guilherme Ferrari é colaborador do Audiovisueiros

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Scott Pilgrim Contra o Mundo (Edgar Wright, 2010)

Um épico de pequenas proporções.

Quando Bryan Lee O'Malley lançou a série de quadrinhos Scott Pilgrim em 2004, usando Toronto e um personagem principal meio loser e cabeça-oca como foco, nuvens não se dissiparam e o mundo não mudou para sempre. Apesar de ter atingido relativo sucesso no mundo das graphic novels indie, os leitores de HQs mais ávidos só achavam que a história era boa ou, quase sempre, 'divertida'. Scott só atingiu o pico do amor indie em 2010, quando O'Malley decidiu encerrar a publicação e Edgar Wright, cineasta que virou sensação underground com seu "Todo Mundo Quase Morto", prometia um épico lançamento de um igualmente épico filme baseado nos seis volumes da série.
O lançamento em si foi surpreendentemente fraco. Depois de todo um circo montado em torno de Michael Cera - o ator de um personagem só - e os 7 ex-namorados do mal durante a San Diego Comic-Con em julho, o filme só chegaria por aqui com entrada mais que modesta em três esparsas salas de cinema (em SP). Mas o épico ainda estava lá. Se você foi dos poucos que entrou nessas salas - ou dos muitos que não aguentou e baixou o BluRay Rip -, sabe do que eu estou falando.
A parte complicada de adaptar Scott Pilgrim vs. The World (dir. Edgar Wright, 2010) é que a série era... quadrinhos demais. As onomatopéias, o uso dos limites dos quadros, o visual preto e branco, a base e a essência que faziam a história ser como ela é. Transferir essas particularidades do quadrinho para a imagem em movimento é tarefa com potencial para virar um desastre de grandes proporções (Hulk?), mas o coelho na cartola de Edgar Wright era um inesperado fator complicação. Não contente em fazer um crossover entre dois meios, ele foi lá e colocou os videogames na massa.
Mais como uma referência à classe que Scott representa, a tal geração Y que só quer ser jovem para sempre e acaba vivendo num limbo de (in)significância, transformar a preciosa vidinha de um baixista sem perspectivas em metáfora de um jogo de videogame é o recurso que pontua não só o tom extremamente despretensioso (e sim, completamente pretensioso também) do filme como também a sensação de que nada acontece de verdade, mesmo que muita coisa aconteça ao mesmo tempo. O jogo existe de fato dentro da cabeça de Scott - e essa licença de tornar tudo tão literal como na cabeça de um jovem como nós acerta os corações juvenis em cheio.
Além do espetáculo visual que abraça as referências de quadrinhos, videogame, televisão (no genial momento Seinfeld), cinema e cultura pop de todo tipo em ritmo acelerado e elipses de cair o queixo, Scott Pilgrim Contra o Mundo retrata sem nenhum filtro de seriedade adulta o que é a atração, e não necessariamente o amor. Ramona Flowers pode ser o sentido que todo jovem procura na troca de olhares na balada, no poke do Facebook ou no corredor da faculdade. Ou simplesmente a princesa no castelo ao final da fase. Isso realmente não importa, observando o conjunto da obra. Aquilo tudo que você - nerd, indie, facilmente agradável - curte, misturado num filme que te deixa crer que, bem... o Mundo que você enfrenta depende, sobre todas as coisas, da sua cabeça.


*Maíra Testa é colaboradora do Audiovisueiros

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A Origem (Chistopher Nolan, 2010)

Depois do filme de herói, Nolan se arrisca agora no campo do sonho, e se sai muito bem...

O novo filme de C
histopher Nolan se concentra "basicamente" no campo do sonho e da imaginação. Cobb (Leonardo DiCaprio) invade o sonho das pessoas e rouba seus segredos mais profundos para depois vendê-los para algum poderoso "cliente". O filme se constrói, desde o início, de maneira bastante surreal, e não conseguimos saber ao certo em que momento estamos dentro de um sonho, em que momento estamos na própria realidade ou se todo o filme é um grande sonho, enfim, a história permite que diferentes interpretações sejam propostas. Cobb é então contratado para fazer um serviço que seria exatamente o inverso do seu, ele teria que inserir um pensamento na cabeça de um homem, a pedido de uma pessoa que Cobb, anteriormente, teria tentado roubar o sonho. Esse "pensamento inserido" faria com que o herdeiro de um poderoso reino dividisse seu império e evitasse o início de um grande monopólio. A partir disso, Cobb começa a formar uma equipe que possa ajudá-lo a criar o sonho dessa pessoa para que ele posso invadir e cumprir sua missão. Além disso, fica claro que Cobb possui uma estranha relação com Mall (Marion Cotillard), sua "falecida" (ou não) ex-mulher, o que vem prejudicando os seus próprios sonhos. Cobb também que realizar seu maior sonho: rever seus filhos, de quem ele já nem lembra mais os rostos.

O filme se faz impecável em diversas frentes: a história é completamente envolvente e instigante, nos faz viajar dentro e fora do mundo dos sonhos, deixa várias brechas abertas, e nos proporicona uma complexa imersão dentro da mise-em-scène criada a partir desse campo não-real; os atores apresentam ótimas interpretações, não somente DiCaprio mas também Marion Cotillard, Elen Page e Joseph Gordon Levitt; a grande maioria dos efeitos estão em prol da narrativa e não são feitos de pós-produção, mas sim trucagens de cenário, como na cena da briga no hotel; a montagem é bem estruturada, consegue situar os momentos dos sonh
os (1º, 2º e 3º grau) além de dar um ótimo ritmo ao filme; o fotógrafo é o mesmo de "Dark Night", precisa dizer alguma coisa? Incríveis master shots que situam a ação e os personagens, além de planos gerais, e precisas movimentações de câmera; A arte também é bastante imponente, construindo um mundo real e um mundo ficcional ao mesmo tempo e confundindo os dois, trazendo o passado, o presente e o futuro para o mesmo campo; e por último e não menos importante, o som, onde percebe-se um cuidado imenso com cada ruidagem, foley e som ambiente, bem como a intensidade e dramaticidade dos diálogos, acompanhados pela bélissima, estonteante e arrasadora trilha sonora de Hans Zimmer (não podemos esquecer a contribuição de Edith Piaf) que abusa dos gravez e provoca uma certo entorpecimento narrativo, enfim, parece que todos os elementos nesse filme estão em favor do próprio filme, tudo está na medida, a decupagem, os objetos cênicos, o figurino, a luz, nada está em excesso, parece de fato CINEMA, em sua essência, com uma boa história e ótimos atores.

Chris se superou mais uma vez, já podem ter uma ideia do que esperar de "Batman 3"


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Nada foi em vão (Kiwi Dilemma, 2010)

Dessa vez não estou aqui para escrever alguma crítica ou texto reflexivo sobre algum filme em cartaz. Venho agora divulgar um trabalho meu e de amigos da faculdade, um clip em plano-sequência que filmamos durante um longo dia de domingo. A câmera utilizada foi Cannon 5D Mark II e não existe, mesmo (eu juro), nenhum corte, foi tudo de resultado de muita dedicação e suor de uma galera que está começando uma próspera caminhada no mundo audiovisual. Espero que vocês gostem, e por favor divulguem, sabem como é o mundo da comunicação, um fala para o outro que fala para o outro e enfim...
E não deixem de conferir o making of, vale a pena...

"É, a gente ainda é cabaço mas até que fazemos um barulho mais ou menos" - Fábio Aguiar, diretor.


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros

terça-feira, 20 de julho de 2010

Dzi Croquettes (Tatiana Issa e Raphael Alvarez, 2009)

Grupo revolucionou o cenário artístico e cultural brasileiro na década de 70...

"Bicha não morre filha...vira purpurina", a expressão, hoje popularmenta conhecida, ganha força extrema no documentário dirigido por Tatiana Issa e Raphael Alvarez, que conta a história do grupo "Dzi Croquettes", famoso na década de 70, por uma inovação teatral através da dança e da música. No contexto histórico, estamos falando do auge da ditadura militar, do AI-5, onde qualquer forma de liberdade e manifestação política era duramente reprimida, incluindo shows, espetáculos teatrais e até mesmo exibições de filmes em salas de cinema. O grupo, composto inicialmente por 13 homens, fazia shows onde a performance corporal tinha papel de destaque, eles se apresentavam vestidos de mulher ou, na maioria das vezes, semi-nus, gerando ao olhar um certo desconforto e prazer ao mesmo tempo, de uma sexualidade dúbia e andrógina, que mexia com os hormônios e com os desejos de uma platéia extasiada.O documentário relata depoimentos de pessoas diversas: atrizes como Marília Pêra e Betty Faria e atores como Pedro Cardoso e Miguel Falabela; músicos, cantores ou produtores musicais como Ney Matogrosso e Nelson Motta; além de é claro, alguns ex-integrantes do Dzi Croquettes que falam sobre o momento que o grupo surgiu, até o seu auge e o seu rompimento no final da década de 80. O filme também se preenche com imagens de arquivo dos shows e reportagens e fotos da época, conseguidos através de uma televisão alemã.Um dos momentos mais interessantes do documentário é quando alguns dos "Dzi" falam sobre a volta ao Brasil e o fim do grupo depois de passarem uma temporada na Europa, de onde iriam direto para a Broadway, mas por algum motivo (explicado de maneira muito superficial no filme) decidem retornar para fazer um show em uma fazenda na Bahia. A partir disso fica claro que houve um motivo muito maior para que eles retornassem, que não é exposto no filme.O tom nostálgico e pessoal é dado pela diretora Tatiana Issa que conviveu com o grupo durante algum tempo, seu pai era cenógrafo e amigo do grupo, e isso se dá de maneira bastante subjetiva, em voz off, com apenas 3 passagens durante todo o filme, mas que garantem um forte sentimento de admiração e reconhecimento por parte dela.Se não é inovador enquanto formato, é interessante pela trajetória desse fantástico grupo."Quando eu ficava com medo, eles vinham e falavam para eu fechar os olhos que tudo ia ficar bem, aqueles palhacinhos que enfeitavam minha vida" - Tatiana Issa.


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros

sábado, 17 de julho de 2010

O Pequeno Nicolau (Laurent Tirard, 2009)

e a fábula da infância.

Conversando com franceses dias desses, soube que existem dois livros que praticamente toda criança na França acaba lendo - a popular fábrica de lágrimas "O Pequeno Príncipe" e a série de quadrinhos "O Pequeno Nicolau", de René Goscinny (o mesmo das histórias de Astérix). O livro de Saint-Exupéry aborda em profundidade a inocência e propõe reflexões filosóficas sobre a pureza, enquanto os livros de Goscinny mergulham no imaginário pueril das crianças quase que literalmente. No ano passado, a série ganhou uma adaptação cinematográfica produzida na França, que entrou em cartaz no Brasil no início do mês.
Mantendo o título original dos quadrinhos, Le Petit Nicolas (2009, dir. Laurent Tirard) conta a história de Nicolau - a escolha da tradução de todos os nomes de personagens indica algum apelo, mesmo que esquecido, ao público infantil -, um menino que tem a vida que gostaria de ter: uma boa família, uma professora amável e colegas divertidos. Nicolau é tão feliz com a maneira como as coisas estão que mal consegue se decidir sobre o que quer ser quando crescer. Para ele, basta que tudo continue igual.
É quando o mundo dos adultos, que Nicolau e os colegas de sua idade tanto custam a entender, dá a ele sinais de que as mudanças estão por vir - e são muitas! Acreditando que sua mãe pode estar grávida de um irmãozinho e que seus pais farão de tudo para livrar-se do filho mais velho antes do bebê nascer, ele e seus amigos começam a bolar planos para salvar o garoto e acabar com a ameaça. A brincadeira realidade/imaginação entre o que Nicolau pensa e o que as coisas são de fato dá o tom da narrativa.
É justamente nesse sentido que a direção leve de Laurent Tirard mantém o espectador imerso nessa aura de inocência com que o garoto enxerga o mundo.
Apresentando a visão de Nicolau (onde tudo pode ser interpretado pelos olhos da criança que não compreende os assuntos e preocupações dos mais velhos) e também a versão dos adultos diante dos fatos, ainda que contidos no mesmo universo agradavelmente colorido (na direção de arte impecável que retrata uma França cotidiana da década de 50), o filme garante risos e situações divertidas entrando em temas que fazem qualquer marmanjo se identificar (da rivalidade meninos X meninas até as reuniões da turminha do bairro). O clima lembra "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain", com inserções pontuais para apresentar personagens e a abordagem quase lúdica do universo do menino.
É preciso, no entanto, abrir os horizontes; "O Pequeno Nicolau" é uma fábula de inocência despretensiosa, sem grandes objetivos de fazer pensar como "O Pequeno Príncipe" o fazia nos livros. Trata-se de uma pequena amostra de como a mente de uma criança funciona e de como os adultos, algum dia, deixam de compreender o que era pensar como uma. Mas nada de lágrimas, nostalgia ou sentimentos descortinados - vale mais abraçar a noção de que esse é um filme para crianças, sim, mas onde qualquer um pode rir e se divertir do mesmo jeito. Para uma boa tarde de domingo no cinema.


*Maíra Testa é colaboradora do Audiovisueiros

quarta-feira, 14 de julho de 2010

É proibido fumar (Anna Muylaert, 2009)

Sobre músicas e cigarros...

O 2° longa-metragem dirigido por Anna Muylaert (o 1° foi Durval Discos, 2002), trás a história de Baby (Glória Pires), coroa solteirona, fumante, professora de música, que vive no apartamento deixado pela mãe e Max (Paulo Miklos), um homem de meia-idade, músico e "supostamente" divorciado. Eles acabam se conhecendo quando ele se torna vizinho de apartamento dela, mas logo descobrem que ambos nutrem um gosto em particular, a música, mas divergem quanto ao gosto pessoal. De qualquer maneira a relação se constitui, entretanto Max não permite que Baby fume em seu apartamento, daí o título do filme e a iniciativa de Baby em parar de fumar. Com o decorrer do tempo, Baby descobre que Max mantém contato com sua ex-mulher, que é fumante.A trama se desenvolve de maneira simples, Baby gosta de Max, mas ao mesmo tempo sabe que ele alimenta uma mentira: de não manter relações com sua ex, contudo, a situação muda quando um fato inusitado retira a "ex" da vida do casal. Baby é uma mulher que vive no passado, no passado da mãe, enquanto mantém uma relação de tapas e beijos com suas 2 irmãs, já Max é um cara que ainda tem um pouco a curtir na vida, mas encontra em Baby seu "porto seguro".O filme preza por um tom realista dado pela fotografia quase sem contraste, marcada por movimentações em travellings (algumas vezes de maneira desnecessária) que ajudam a compor o 1° e o 2° plano no quadro, e por alguns movimentos de grua que dão tom mais emotivo ao filme, principalmente no plano do cemitério. A direção de arte, um ponto muito forte no filme, trabalha em cima do cotidiano e do básico, a cenografia e os objetos dão o tom nostálgico para o apartamento de Baby, de um não desvincilhamento do passado, bem como o figurino, exagerando na utilização de moletons de cores extravagentes que sugerem uma forte ligação com o comodismo da personagem. O som, marcado bastante pela trilha sonora, compõe uma ponte interessante entre os momentos de comédia e de não comédia, com algumas piadas soltas e pausas dramáticas silenciosas. O roteiro é marcado por bons diálogos mas peca por uma certa obviedade, ele não nos surpreende ao ponto de causar surpresa, mas se estabelece como um guia seguido pelos personagens principais.Glória Pires atua de maneira convincente, buscando o roteiro e improvisando quando necessário, já Miklos faz o contrário, improvisa o tempo todo e isso provoca um certo descompasso entre os dois, ora de maneira positiva, logo no começo da trama e hora de maneira negativa, já no final do filme.O filme vale a pena principalmente pela simplicidade e pela sinceridade com que a história é contada. Nada de novo, mas pelo menos não é igual ao resto.


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros

domingo, 20 de junho de 2010

Homem de Ferro 2 (Jon Favreau, 2010)

Continuação é boa, mas não supera o 1° filme...

Robert Downey Jr. retorna no papel do herói milionário Tony Stark, dessa vez assumindo sua identidade secreta publicamente. Nesse novo filme, Stark começa a sofrer com o equipamento instalado em seu peito e revela-se (nessa parte a trama se identifica bastante com a história original) um legítimo alcoólatra, sendo assim, passa boa parte do filme bêbado, o que gera uma pequena crise de identidade e um certo mal-estar para com as pessoas de sua confiança. Em sua companhia continuam a secretaria Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) e James Rhodes (Don Cheadle), subtituindo o ator Terrence Howard. O vilão da vez é Ivan Vanko, interpretado por Mickey Rourke que tenta vingar o pai, este que teria sido enganado, no passado, pelo pai de Tony Stark. O enredo se apresenta de maneira clara, sabemos o tempo todo o que está acontecendo, do que Stark tem medo, o que esconde, o que estão tramando contra ele, enfim, não existem muitas surpresas no filme, mas isso não significa que o filme seja previsível, ele não é, e isso fica claro pela aparição súbita de Nick Fury (Samuel L. Jackson), que surgiu no final do 1° filme e pela misteriosa Viúva Negra (Scarlett Johansson), que dão indícios de como pode vir a se formar "Os Vingadores", com a convocação, mesmo que indireta, de Tony Stark.No mais, o filme preza pelos ótimos efeitos visuais, pela trilha sonora da banda ACDC e por uma bela edição de som e mixagem. O tom característico de Robert Downey Jr. deixa Tony Stark bastante irreverente e divertido, ás vezes até demais, mas serve para contagiar e deixar o personagem mais próximo do público, bem como seu romance/não romance com Pepper. Quem realmente rouba a cena é Mickey Rourke como o vilão russo Ivan, e sua arara de estimação, Rourke faz uso de um sotaque russo, o que faz com que sua voz se torne estranha, mas ao mesmo tempo, cheia de autoridade e confiança, além de seus dentes de ouro e suas espressões faciais que são um show a parte. Os demaispersonagens mantém aquilo que é esperado, sem nenhum destaque especial.Uma grande relação que se estabele e se revela de um modo bastante peculiar é a de Stark com seu falecido pai. Stark filho percebe, através de um filme deixado por Fury, que seu pai sentia muito carinho por ele e que não vivia somente para o trabalho, mas que também pensava no futuro do filho.Novas roupas, novos personagens e uma nova história, mas mesmo assim, Homem de Ferro 2 não supera o 1° filme, com todo seu frisson e sua surpresa. Acabo levando a sério minha tese de que existe um "mal" entre os filmes de herói, o 1° sempre acaba sendo melhor do que as continuações.
P.S.: Por favor, fiquem até o fim dos créditos, se você acompanha a história do filme "Os Vingadores", não vai se arrepender...


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O mundo imaginário do Dr. Parnassus (Terry Gilliam, 2009)

Surreal e fantástico enriquecem último filme com a participação de Heath Ledger

O filme criou muita espectativa a partir da última aparição de Ledger no cinema e acabou gerando inclusive, algumas polêmicas pela troca de atores. O novo filme de Terry Gilliam (um dos criadores da série Monty Python), conta a história de Parnassus, um senhor de mais de 1000 anos, que fez um pacto com o diabo, onde teria que dar a ele sua filha, assim que esta completasse 16 anos. O senhor Parnassus comanda uma pequena trupe: um anão; um jovem menino e sua filha e eles apresentam seus espetáculos contando com a ajuda de um enorme espelho mágico, onde as pessoas podem entrar e se deliciar com suas mais profundas imaginações. Então, eles encontram Tony (Ledger), um rapaz em estado de amnésia que acaba incorporado ao grupo e passa a participar dos espetáculos. Parnassus faz então um outro pacto com o diabo para salvar sua filha e Tony acaba envolvido na situação, consciente ou inconscientemente. O filme tenta, num primeiro momento, se prender num campo mais realista, mesmo com os índices não reais: homem de mais de 1000 anos de idade, diabo, espelho mágico, o que temos é a apresentação de uma história clara e clássica, com uma estrutura completamente segura e óbvia. Mas, aos poucos, vamos embarcando nesse mundo do sonho, através da imaginação das pessoas que conhecem o espelho e também pelo choque de imaginações provacada por Tony (a regra do espelho não permite que duas pessoas o visitem juntas), que acaba servindo como mentor dos curiosos.A direção de arte impecável, explorando ao máximo esse ambiente anti-naturalista, com cores fortes e expressivas, além de objetos e figurinos extravagentes; a fotografia segue o mesmo ritmo, muitas vezes, utilizando movimentos de câmera impossíveis e enquadramentos diferenciados; a montagem altera momentos frenéticos com momentos calmos, em variação com a imaginação de cada personagem. A utilização de outros atores (Johhny Depp, Jude Law e Colin Farrel) para substiuição de Heath Ledger no papel de Tony, acabou casando com a narrativa do filme de uma maneira bastante interessante, ainda mais em se tratando de um campo do sonho e do surreal. O filme se utiliza de um recurso difundido por Alice (Lewis Carrol) e muito bem utilizado em "Matrix" (Irmãos Wachowski, 1999), quando, a partir de uma decisão simplória do personagem, ele escolhe que caminho seguir, se o da realidade ou o da ficção, ou vice-versa.Sobretudo, o filme não tem medo de errar explorando esse novo mundo, cheio de possibilidades, de uma maneira bastante intensa e muitas vezes até, exaustiva. O filme "não fica em cima do muro", ele se encontra com o surreal e parte em busca do imaginário de fato. Me lembrei bastante de um filme nacional bastante competente, "O contador de histórias" (Luis Villaça, 2009), que também apresenta essa premissa do mundo imaginário e inventado, mas que infelizmente não o explora a fundo, fica apenas na superfície, o que é uma pena, porque esse poder que o surreal exerce enriqueceria muito a narrativa. Mas me parece, que mais uma vez no cinema nacional, houve medo de se arriscar.Bom, Gilliam não teve medo e realizou um excelente filme, adeus querido Heath Ledger, você fará muita falta...


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros

domingo, 6 de junho de 2010

Mary e Max (Adam Elliot, 2009)

Stop Motion resgata o espírito da amizade

Max, um velho rabugento e Mary, uma jovenzinha de 8 anos? Não, não é um novo filme do Woody Allen, estou falando de uma animação em stop motion exibida no festival de Sundance, que conta a história dos protagonistas já citados, que não se conhecem mas buscam a mesma coisas: um amigo de verdade. Mary vive com seus pais em uma pequena cidade da Austrália, cultiva uma infância sem graça, onde a única diversão é beber leite condensado assistindo ao seu desenho favorito, "Os Noblets", já Max é um senhor de 44 anos que vive em Nova Iorque, grande amante de cachorro quente de chocolate, encontra em seus animais de estimação e em "Os Noblets" algum sopro de vida.Em um determinado dia, Mary encontra o endereço de Max em uma lista telefônica e eles começam a trocar correspondências. O diálogo se inicia com a pergunta de Mary para Max: "De onde veêm os bebês?", e a partir disso eles iniciam um longo processo de conhecimento sem se conhecerem de fato. Max funciona, inicialmente, como um "psicólogo imaginário" para Mary, que responde suas perguntas e suas inquietaçãos mundanas, mas a relação se estreita quando Mary pergunta sobre o amor, assunto que trás a Max fantasmas do passado.Essa relação se alterna em certos momentos quando Max passa a perguntar e Mary, a responder. O filme caminha dessa maneira enquanto cada um tenta lutar contra os seus próprios medos, encontrando no outro, força e(de) vontade, além da realização de uma amizade verdadeira.A fotografia é destoante nos dois espaços: enquanto Nova Iorque é retratada em preto e branco, temos a Austrália toda colorida, estabelecendo uma metáfora para a vida de Mary que começa e a de Max, que termina. Além de uma direção de arte bastante detalhista, tanto com objetos e figurinos quanto características individuais dos personagens. Por último, e não menos importante, a trilha sonora (sim, tenho dado bastante importância ao som em meus últimos textos, deve ser porque percebi que uma boa trilha sonora me fascina), com uma música tema que capta de maneira simbólica e especial, o sentimento de amizade.Um filme que teria recursos para se tornar um clichê, se mostra muito maduro e consciente, fazendo bonecos transmitirem sentimentos reais. o filme traz a reflexão sobre o sentimento "AMIZADE", em seu estado mais puro e nos mostra porque ELA vale a pena.Engraçado, fazia tempo que eu não me emocionava tanto com um filme, mas esse me pegou de jeito...


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Viajo porque preciso, volto porque te amo (Marcelo Gomes e Karim Aiñouz, 2009)

Marcelo Gomes e Karim Aiñouz em "Viajo"

Poderíamos resumir o novo filme de Karim Aiñouz e Marcelo Gomes como uma poesia narrativa, com uma "quase" estrutura clássica (começo, meio e fim) permeada por momentos profundamente subjetivos e emotivos.A história do filme se resume a uma viagem pelo nordeste brasileiro, feita pelo geólogo José Renato (Irandhir Santos, Pedra do Reino) onde ele faz uma pesquisa sobre um possível canal que será construído a partir do desvio das águas. José Renato, personagem o qual nunca vemos o rosto, nos conta dados técnicos sobre a sua viagem, sobre o seu trabalho, informações que ele vai coletanto para algum fim, que aos poucos vai ficando em segundo plano.Já no pano de fundo da história, outra narrativa começa a se expandir e tomar conta da situação, é uma leitura sobre a memória, o passado e a nostalgia. Percebemos que José deixou um grande amor para trás e que isso ainda o afeta e o perturba, mas ele sabe que deve continuar, esquecer e iniciar uma nova jornada: "Eta, saudade da porra", clama o personagem, durante suas andanças. Mas quando descobrimos que o seu "amor" na verdade o deixou antes dele partir, nos identificamos e nos solidarizamos ainda mais com José, que ainda remoe aquele sentimento e que a fuga, no momento, é a melhor saída para o esquecimento.

O título, outra grande virtude do filme, foi retirado de um cartaz, que o próprio personagem viu durante a sua trajetória pelo nordeste. O filme mescla imagens em super-8 com digital e em determinados momentos se deixa levar para um viés documental, principalmente quando José entrevista uma garota de programa, durante uma parada. O som se preenche quase que praticamente pela narração do personagem, que alterna momentos de extensos monólogos com silencios sepulcrais.Por fim, e não menos importante, relato a passagem que mais me agradou no filme: no momento em que vemos um casal de senhores, José aponta: "eles moram juntos há 50 anos e nunca dormiram uma noite separados, eles serão uns dos primeiros a serem despejados para a construção do canal. Pedi ao senhor que desligasse o rádio...mas pedi que voltasse, não queria filmá-los separados".Um típico road movie brasileiro, uma belíssima obra,"Viajo porque preciso...Não volto porque ainda te amo" - José Renato


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Tudo pode dar certo (Woody Allen, 2009)

O retorno às raízes de Woody Allen...

O novo filme de Woody Allen, "Tudo pode dar certo" (Eua/França, 2009) retoma alguns conceitos contruídos pelo diretor ao longo de sua carreira. Primeiramente, temos um personagem idoso, o alter-ego de Woody Allen, vivido por Larry David, que reclama da vida e diz ser o único que realmente entende a raça humana, este se envolve com uma jovem, a bela atriz Evan Rachel Wood, ingênua e sedutora, que precisa dar um rumo na sua vida, e temos também um segundo homem, o belíssimo Henry Cavill, um jovem que se apaixona pela menina e recebe ajuda mãe da mesma para conseguir ficar com ela. Adiociona-se o humor inóspito e as situações inusitadas, características marcantes do cinema woodyaliano. Afora a semelhança com um outro filme do mesmo diretor, "Manhattan" (Eua, 1979), pelas relações e pelas caracterísiticas dos personagens, ainda temos a quebra da 4ª parede, quando, logo no início do filme, David olha diretamente para a câmera e fala com espectador: "Eles pagaram ingresso e compraram pipoca para nos ver" - ele avisa.Mais uma vez a exploração do diálogo é o ponto forte, com diversos momentos em que o personagem faz um monólogo para a câmera, lembrando muito uma encenação teatral, mas também temos, em outras circunstâncias, momentos em que as falas são explicativas demais, tornando o filme um pouco cansativo. As atuações são fortes, e salientam as personalidades distintas dos personagens, além disso, aquelas situações inusitadas, citadas no começo do texto, aparecem de formar muito impactantes, como a chegada inesperada da mãe da menina no refúgio em que se "esconde" com David e a futura transformação da própria mãe estabelecendo um relacionamento com dois homens ao mesmo tempo; além da chegada do pai que procura pela sua ex-esposa e nos antecipa para seu final surpreendente.Sobretudo, Woody Allen explora o gênero que o consagrou e que o tornou um dos mestres do cinema, a comédia de tipos e estereótipos, personagens bem demarcados e relacionamentos quase impossíveis, muitas vezes um velho e uma jovem que se apaixonam de maneira inexplicável e que vão acabar sofrendo com isso em um determinado momento.O momentos mais engraçado do filme, coincidentemente ou não, é quando o velho olha para "nós" e nos trata como íntimos, conta algum aspecto de sua vida ou fala sobre o próprio filme: "Este não é um filme alegrinho", ele avisa, parecendo ser o próprio Woody dizendo aquela frase, o que nos faz refletir um pouco sobre o seu cinema, sobre a sua forma de ver as coisas, o trágico visto de uma maneira engraçada, o final feliz que é triste, enfim, as coisas que não se resolvem direito, aquilo que pede continuação. Alguns amam, outros odeiam, mas esse é o nosso Woody...


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros

terça-feira, 27 de abril de 2010

How i met your mother (CBS, desde 2005)

Antes de mais nada, aqui vai um SPOILER, a série já está no meio da sua 5ª temporada e o protagonista ainda não conheceu a mãe de seus filhos.
Continuando... How i met Your mother veio suprir a (minha) necessidade de séries água com açúcar como FRIENDS . Ela conta a historia de TED, ou melhor, TED conta para seus filhos a história de como conheceu a mãe deles, mas esse é apenas um pano de fundo para descobrirmos as partes mais interessantes da vida de TED.
A série não tem nada de inovador, mas tudo que ela tem de clichê, ela faz melhor. Sua montagem é evidente e descontraída e seus personagens são muito bem construídos. O protagonista consegue não ser nem o malandro conquistador e nem o bonzinho, ele é um equilíbrio perfeito, um homem comum que ainda assim consegue ser carismático. Diferente do que acontece na maioria das comédias românticas, em que o protagonista tenta alterar características de sua personalidade para conseguir o que quer, TED demonstra uma personalidade e continua com ela até o fim, é consistente e plausível.
Por ele estar contando suas memórias, a narração é recheada de flashbacks dentro de um grande flashback, em que vivemos o processo de relembrar o que aconteceu com o próprio personagem, isso implica, às vezes, ele se corrigir no meio de uma história, voltar atrás e contar uma nova versão ou até mesmo parar no meio de uma cena importante para dar uma explicação qualquer.
O fato da história estar sendo contada aos filhos é um ponto a mais, pois ele modifica elementos de sua juventude para não servir de mau exemplo, como ao invés de falar “maconha” ele fala “sanduiche”, então em muitas cenas vemos ele fumando sanduiches.
Com diálogos muito bem construídos, How I Met Your Mother explica o óbvio sobre uma nova perspectiva.
Apesar da curiosidade de saber como ele de fato conhece a mãe, não tenho pressa, pois sei que quando isso acontecer, o seriado acaba.
Então é isso... fica a dica!
HAVE YOU MET TED?


*Babi Fernandes é colaboradora do Audiovisueiros

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Os famosos e os duendes da morte (Esmir Filho, 2009)

O cinema sensitivo de Esmir Filho...

Mais do que ver e ouvir, é preciso sentir o 1° longa-metragem do diretor Esmir Filho (premiado com os curtas "Alguma coisa assim" e "Saliva").Sentir, no sentido de captar as sensações que o filme nos permite compartilhar: as sensações daqueles jovens gaúchos, da ponte mortal, da música, dos sentimentos reprimidos, do ambiente, da calmitude, do silêncio e do "cú", este último, utilizado no filme como espressão equivalente para o "fim do mundo". Repetindo a estética desenvolvida em "Saliva", Esmir segue novamente com essa preocupação em conciliar som e imagem na criação de sensações, seja de maneira diegética ou não-diegética: uma música (elemento presente e marcante no filme), um barulho de mar, um zumbido de grilo, uma locomotiva de trem, um diálogo em off, enfim, elementos que nos fazem, mesmo que por instantes, ser aqueles personagens, sem se fazer necessário o uso da câmera subjetiva.A história se passa numa cidade interiorana, no Rio Grande do Sul, onde um Menino (denominado simplesmente menino) se comunica com o restante do mundo pela internet e vive a espectativa e a espera de um show do Bob Dylan. Enquanto isso, temos a ponte, que serve literalmente como a chave para o suícidio, muitas pessoas se jogam dela de maneira inexplicável. Paralela a essa história, outro menino, Diego, convive com a morte (pela ponte) da irmã Jingle Jangle (codinome utilizado por ela na internet), possivelmente provocada pelo ex-namorado Julian. A ponte e a cidade atuam como personagens e afetam diretamente as decisões dos protagonistas, causando uma sensação de enclausuramento e asfixia, a cidade não permite que o menino saia para conseguir ver o show e ao mesmo tempo indica o caminho da ponte, num movimento sem escapatória, nos mostrando que o destino de todos naquela cidade é, inveitavelmente, a morte.

O filme preza por planos longos onde muitas vezes temos a ausência de diálogos, ficando somente com as expressões e com a trilha sonora (a se destacar a bela sequência em que Diego anda de bicicleta circundando o menino, enquanto este ouve música num aparelho eletrônico), e peca pelo uso excessivo de imagens em vídeo, mostrando o casal Jingle Jungle e Julian em uma espécie de documentário experimental.A direção, e principalmente a direção de atores, no filme, atua de maneira primorosa com um belo controle de cena e de narrativa, característica que Esmir já vinha desenvolvendo em seus dois últimos curtas. Além disso, a belíssima fotografia de Mauro Pinheiro, que além de utilizar muito bem o claro/escuro nos oferece ainda enquadramentos sensíveis e emotivos, como quando o Menino gira num gira-gira pela ótica de um enquadramento aéreo. Direção de arte e figurino se casam para estabelecer o padrão de interior e ajudar a criar o clima frio do sul brasileiro. Por último e não menos importante, a direção sonora do filme, feita por Martin Grignaschi, com quem Esmir já trabalhou em "Saliva", simplesmente maravilhosa e super bem trabalhada, não me lembro de algum exemplo recente no cinema brasileiro que possua um som tão bem pensado quanto este: a maneira como os ruídos e o som ambiente se interagem, a entrada e a saída da música, os diálogos e a utilização da voz off, enfim, tudo está encaixado e bem concatenado, numa concepção sonora bastante apurada.Contudo, "Os famosos e os Duendes da morte" é um filme difícil, que exige alto grau de concentração e aceitação, portanto será muito complicado atingir o grande público. Um projeto um tanto quanto ambicioso para alguém que estréia o primeiro longa, mas esperamos que este seja apenas o início de uma próspera carreira de direção para Esmir Filho.

*Renan Lima é editor do Audiovisueiros

domingo, 18 de abril de 2010

Ilha do Medo (Martin Scorsese, 2010)

Estrelando, Scorsese em "Thriller"

Depois de quase 4 anos sem dirigir uma ficção (Scorsese dirigiu "Os Infiltrados" em 2006 e realizou o documentário "Shine a Light", sobre os Rolling Stones, em 2008) Martin Scorsese retorna em grande estilo com o suspense "Ilha do Medo", Leonardo DiCaprio é o novo Robert DeNiro, formando uma parceria com o diretor em mais um trabalho. No Filme, DiCarpio interpreta Teddy Daniels, um policial que investiga o desaparecimento de uma paciente do hospital Shutter Island Ashecliffe, em Boston e conta com a ajuda de seu parceiro Chuck Aule para desvendar o mistério. A trama se passa no ano de 1954, num EUA pós-guerra, Daniels ainda é atormentado por traumas da Segunda Guerra, e aos poucos, conforme a narrativa caminha vamos descobrindo um pouco sobre esse personagem.Mesmo utilizando apenas uma ilha como "cenário" e ambientação da história, temos referências de outros lugares de outros anos que são fundamentais para o entendimento da trama, como Daniels em guerra na Alemanha Nazista e na companhia de sua mulher e filhos. Assim percebemos que durante muito tempo, ele tentou conciliar sua vida pós-traumática com a constituição de uma família, junção esta que não deu certo e culminou na morte de sua mulher e filhos. A "Ilha", utilizada como personagem no filme, cria o clima sufocante e claustrofóbico necessário para a imersão na história e causa ainda a sensação de um lugar finito, de onde não se sai e não se chega. Juntam-se a essa ilha as ótimas interpretações de DiCaprio e Ruffalo, o segundo, baseado muitas vezes nas feições e gestos do que no próprio diálogo. Fotografia e arte se conciliam para criar o ambiente sombrio e escuro, nos remetendo bastante a um clima "noir", trabalhando bastante com cores escuras e pálidas. Estes dois artifícios preparam o caminho para a montagem de uma velha conhecida e parceira absoluta de Scorsese, Thelma Schoonmaker, que por seus cortes descontínuos em determinados momentos do filme (que trabalham em função da narrativa, em cima da psiquê de Daniels), geram um certo estranhamento ao expectador mas que de nada atrapalha seu belo trabalho na criação de tensão do filme.

Nesse novo filme, Scorsese foge um pouco do cinema que está habituado a trabalhar um cinema realista, muitas vezes pautado na realidade e em biografias de personalidades reais e se arrisca com um "thriller", um suspense preso muitas vezes no sonho e na loucura de um personagem. Com um final surpreendente e momentos de muita tensão, "Ilha do Medo" se torna um ótimo filme, trabalhando a relação da memória e da loucura com extrema qualidade. Não deixem de ver...


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros

sexta-feira, 9 de abril de 2010

As Melhores Coisas do Mundo (Laís Bodanzky, 2010)

Aos jovens, com carinho...

Adolescência, sexualidade e liberdade: a junção desses 3 elementos é fundamental para se contar a história do novo filme de Laís Bodanzky, "As melhores coisas do mundo". Um filme jovem, feito para o público jovem, "As melhores" tráz a vida de Mano, um menino de 15 anos que encara as questões e os "problemas" de uma juventude agitada: a separação dos pais, a revolta do irmão, a paixão adolescente, os círculos de amizade, enfim, retrata o cotidiano do jovem em fase de transição, que tenta entender seus próprios "por quês", muitas vezes encarando a família como inimiga e tornando o diálogo impossível, mas por outro lado, buscando nos amigos a ajuda para resolver os próprios problemas. Junta-se a Mano, a menina Carol, madura para sua idade, ela partilha dos conflitos do amigo, tentando compreender melhor o seu papel no mundo em que está inserida, lidando ainda com uma paixão platônica por um professor da escola.
Com diálogos muito bem desenvolvidos e sinceras atuações (principalmente do casal protagonista, não atores), o filme carrega um tom de nostalgia e resgata possíveis traumas nos pós-adolescentes de hoje que acaba se refletindo nos espectadores de maneira muito pessoal e íntima. A fotografia realista de Mauro Pinheiro e a montagem dramática de Daniel Rezende dão o tom necessário para o agradável clima que o filme carrega.
As notas baixas ficam por conta dos personagens: Pedro, irmão de Mano, um adolescente bebezão, atormentado pelo abandono da namorada, irritado com o irmão, com a família e com o mundo; Marcelo, o professor de violão de Mano, que nos momentos de "respiro" do filme, não dá conta de tranquilizar o seu pupilo, colocando ainda mais dúvidas em sua cabeça; e Bruna, a lésbica do colégio, cuja personagem poderia ter sido melhor explorada durante toda a trama.
de qualquer forma, "As melhores coisas do mundo" torna-se um ótimo filme, tão b
om quanto o anterior, da mesma diretora (Chega de saudade), que dessa vez, tenta através da internet (o filme foi amplamente divulgado e comentado em grandes sites de relacionamento como Twitter e Facebook) a sua aproximação com o público jovem. Esperamos que o filme vá muito bem nas bilheterias e que "As melhores coisas do mundo" torne-se uma das "melhores coisas do cinema".


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros

quinta-feira, 25 de março de 2010

O segredo dos seus olhos (Juan José Campanella, 2009)

O segredo dos seus olhos, Juan José Campanella

A notória ascensão do cinema argentino não é nenhuma novidade, quando se pensa em cinema latino-americano de qualidade, lembramos sempre de nossos queridos "hermanos". Em "O segredo dos seus olhos", o que encontramos é um cinema maduro e consciente, que "bri
nca" com os costumes, as gírias, os tipos e o humor do povo argentino. No elenco, o já consagrado ator Ricardo Darín e a atriz Soledad Villamil formam o casal protagonista numa história que joga com o passado e o presente, tendo como fio narrativo um crime brutal não resolvido: o estupro e assassinato de uma mulher. A narrativa se desenvolve a partir do desenrolar deste caso, dado de um único ponto de vista, ponto de vista este que somente será outro quando a resolução da história será dada pela atitude surpreendente do marido viúvo. O filme conta com interpretações impressionantes, marcada por diálogos muito bem desenvolvidos e uma narração em voz over, cheia de nostalgia e um certo tom de reflexão, dada pelo personagem principal. A montagem paralela alterna não somente situações dramáticas distintas mas também tempos históricos, sendo assim, podemos perceber traços de personalidade diferente nos mesmos personagens, que num 1º momento demostram uma certa excitação e ingenuidade, combinados a uma certa hesitação perante a possibilidade de uma paixão sem limites; e, num 2º momento, apresentam o amadurecimento de uma vida que poderia ter sido melhor aproveitada, e agora decidem, de uma maneira muito mais racional e espontânea, retomar o amor adormecido. O crime passional, então resolvido pelo tom de confiança estabelecido entre o casal cria as condições necessárias para o estabelecimento de uma relação amorosa.

Com uma câmera segura e realista, que tenta se aproximar ao máximo dos personagens, se estabelece uma situação de cumplicidade para com os fatos apresentados (a se destacar o primorável plano-sequência de mais de 4 minutos, executado com excelência técnica e uma primorosa criação dramática). Desbancando o filme alemão "A Fita Branca" (Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2009) no oscar de melhor filme estrangeiro deste ano "O segredo dos seus olhos" é com certeza um filme que merece ser visto. Como diz aquele outro: "Se o tango não agrada, a se ver o cinema, muito mais adulto que o nosso...


*Renan lima é editor do Audiovisueiros

sábado, 6 de março de 2010

Guerra ao Terror (Kathryn Bigelow, 2009)

A guerra de poucos...ou de muitos?

Mesmo ofuscado pelo rival "Avatar" concorrente direto pelo oscar de melhor filme, "Guerra ao Terror" conseguiu seu espaço e repercutiu de maneira intensa na mídia internacional. O filme mostra o cotidiano de um grupo especial anti-bombas que atua no Iraque. Até aí muitos pensariam: "E lá vem mais um filme de guerra" mas o que se tem é um retrato impressionante e até certo ponto revelador sobre a psiquê desses soldados americanos. Deixando de lado o espírito nacionalista americano juntamente com o "novo" governo Obama (o que na minha opinião será determinante para o resultado do oscar no próximo domingo), o retrato que se faz é de pessoas comuns que tiveram suas vidas completamente modificadas por uma guerra que não lhes pertence e que de um ponto de vista mais externo e abrangente não faz o menor sentido. Os personagens, reais, são dominados pela loucura, uns mais do que outros, e pela pergunta, que de maneira subjetiva, atinge o filme: "O que estamos fazendo aqui?" A "guerra" levada de dentro para fora em um país que esconde o rosto (literalmente) nos faz pensar o que se passa na cabeça de um soldado americano que vive cada dia como se fosse o último, contanto os minutos para voltar para casa. O esquadrão anti-bombas se vê a mercê de um comandante já atingido pela loucura que toma atitudes inesperadas e suicidas como, em uma das passagens do filme, quando retira o agasalho de proteção durante um desativamento de bomba. Vale ressaltar a atitude da câmera como elemento atuante, alternado momentos de grande euforia e agitação, zoom in e zoom out, além de muita câmera na mão; com momentos mais calmos, onde podemos respirar e tentar compreender a complexidade pela qual se passa o personagem em guerra. A montagem, primorosa, caminha nos mesmos moldes da fotografia, se valendo de planos curtos e planos longos em demanda da intenção dramática. Numa das sequências finais do filme, um soldado tenta ajudar um cidadão iraquiano, que tem seu corpo repleto de bombas, mas a ajuda é em vão e o soldado diz: "Me desculpe, eu queria ajudar mas não posso", além da ambiguidade na fala, cabe pensar também sobre o que é essa guerra, que é tão distante para alguns e tão próxima para outros...


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros

domingo, 31 de janeiro de 2010

Invictus (Clint Eastwood, 2009)

Convicções Invictas

Eastwood volta aos cinemas e coloca o apartheid em pauta. Mas dessa vez, qual a moral da história?

"Invictus" (2009, dir. Clint Eastwood) é o exemplar mais recente de uma minuciosa cinematografia marcada por dramas pesados e lições de moral às avessas. Clint Eastwood, depois de um hiato de grandes papéis, foi deixando a carreira de ator aos poucos para se juntar ao filão de diretores experientes, sábios defensores do cinema clássico na então pirofágica Hollywood (que coloca 3D e óculos especiais em todos as telas e rostos). Se é do diretor por trás de dramas densos como "Menina de Ouro" (Million Dollar Baby, 2004) e "Gran Torino" (2008), e ainda colocando no meio a figura emblemática de Nelson Mandela e uma abalada África do Sul, era de se esperar outro drama de se chicotear de culpa na saída do cinema.
Não exatamente. O filme começa voltando à libertação de Mandela (Morgan Freeman, que depois de ser Deus pode ser qualquer um, numa atuação medida para o Oscar) depois de 27 anos na prisão, num país que acabara de sair do apartheid que o dividiu entre negros e brancos por muitas décadas.
Não demora muito até Mandela ser eleito presidente e começar a notar o confronto do desejo da maioria negra (e também mais pobre) com o da minoritária elite branca. Daí surge a teimosia de um líder que sabia como queria governar seu país, com suas fraquezas (mas curiosamente, nenhum defeito) e seus desejos irrefutáveis. Direção e elenco caminham juntos na construção do homem que era um mito, observando de perto quem foi Nelson Mandela. Freeman se delicia nesse terreno, apesar de se perder por vezes na semelhança física com o personagem. Até que o rugby entra na história.
De todas as formas de expor a figura sábia e carismática de Mandela por seus atos menos conhecidos, Eastwood escolhe o difícil caminho dos filmes de esporte. Os apertos de mão e os discursos históricos vão dando lugar ao rugby e à importância da seleção do país na história, odiada pelos negros por ser símbolo do que fora o apartheid até pouco tempo. E a partir daí, começa a derrapar em clichês. Existem fórmulas difíceis de driblar quando se trata da soma de esportes e drama no cinema. Talvez por uma quase aparente pressa na realização do filme - chuto alguma coisa relacionada às seleções do Oscar -, que transparece tanto na trilha sonora que insiste em não encaixar com nada quanto em alguns efeitos visuais muito evidentes, Invictus não segue um caminho original. E bote drama, flashbacks com voz off, contusões, e muitas, muuuitas câmeras lentas no terço final do filme.
Era mesmo de se esperar emoção, lágrimas e suor quando o foco dramático passa à Copa do Mundo de Rugby de 1995. Mas vindo do homem que deixava salas de cinema em silêncio ao final da sessão dos seus filmes, abrindo abismos para reflexão sobre as injustiças do mundo e como se pode conviver com isso, Invictus fica raso demais. Que Mandela era um grande homem, nós sabemos. Mas parece que a grande lição ao final do filme é de que rugby é tão legal de ver em câmera lenta quanto futebol americano.


*Maíra Testa é colaboradora do Audiovisueiros

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Lula, o filho do Brasil (Fábio Barreto, 2010)

Companheiros e Companheiras...

Por meio de toda a mística que existia em torno do lançamento do filme, envolvendo questões como: ano eleitoral, a mistificação do "personagem Lula", a utilização ou não de dinheiro público na produção do filme e o seu elevado orçamento (em torno de R$12 milhões) o que se esperava era praticamente uma campanha eleitoral em forma de ficção, mas não é isso o que acontece, "Lula", antes de ser um filme eleitoral, é um filme brasileiro, que capta muito bem o ideal do "sou brasileiro e não desisto nunca". O filme começa com uma peregrinação da família "da Silva", vinda do interior nordestino para o interior paulistano que nos faz lembrar um pouco o filme "Vidas Secas" de Nelson Pereira dos Santos", entretudo pela figura do animal de estimação da família, um cachorro que aqui também leva o nome de outro animal, "Lobo", mas que neste caso fica no local de origem. Depois disso, temos a luta de uma família que chega a São Paulo em busca de oportunidades, de uma vida melhor, de tentar encontrar o próprio destino. Centralizado inicialmente na figura da mãe, o papel que Glória Pires interpreta maravilhosamente bem, o filme mostra um "Luiz Inácio" filho não do Brasil, mas de Dona Lindu, uma mãe que abandona o marido alcoólotra e cria sozinha todos os filhos, a própria mãe sofrimento brasileira. No restante, temos um filme de personagem, que mostra todo o trajeto de Lula, desde o início de sua carreira como metalúrgico no ABC paulista até se tornar um líder sindical. Exatamente, o filme acaba mais ou menos 12 anos antes de Lula se tornar presidente, sendo assim, o filme tenta ao máximo fugir do viés político, construindo uma figura brasileira universal, mas de qualquer forma, no final do filme, imagens do próprio Lula assumindo a presidência da República em 2002 acabam condenando, pelo menos parcialmente, o filme de Fábio Barreto. O filme faz questão de deixar claro que não utilizou dinheiro público, exibindo logo no início o logo de todos (por volta de 15 se não me engano) os patrocinadores, e para um olhar mais treinado fica visível como o dinheiro foi gasto: uma viagem pelo Brasil, detalhamento quase milimétrico das fábricas, cenas de multidão com milhares de figurantes, além de atrizes como Glória e Cléo Pires. Longe de ser um filme excelente, ao menos superou as expectativas.


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros