domingo, 31 de janeiro de 2010

Invictus (Clint Eastwood, 2009)

Convicções Invictas

Eastwood volta aos cinemas e coloca o apartheid em pauta. Mas dessa vez, qual a moral da história?

"Invictus" (2009, dir. Clint Eastwood) é o exemplar mais recente de uma minuciosa cinematografia marcada por dramas pesados e lições de moral às avessas. Clint Eastwood, depois de um hiato de grandes papéis, foi deixando a carreira de ator aos poucos para se juntar ao filão de diretores experientes, sábios defensores do cinema clássico na então pirofágica Hollywood (que coloca 3D e óculos especiais em todos as telas e rostos). Se é do diretor por trás de dramas densos como "Menina de Ouro" (Million Dollar Baby, 2004) e "Gran Torino" (2008), e ainda colocando no meio a figura emblemática de Nelson Mandela e uma abalada África do Sul, era de se esperar outro drama de se chicotear de culpa na saída do cinema.
Não exatamente. O filme começa voltando à libertação de Mandela (Morgan Freeman, que depois de ser Deus pode ser qualquer um, numa atuação medida para o Oscar) depois de 27 anos na prisão, num país que acabara de sair do apartheid que o dividiu entre negros e brancos por muitas décadas.
Não demora muito até Mandela ser eleito presidente e começar a notar o confronto do desejo da maioria negra (e também mais pobre) com o da minoritária elite branca. Daí surge a teimosia de um líder que sabia como queria governar seu país, com suas fraquezas (mas curiosamente, nenhum defeito) e seus desejos irrefutáveis. Direção e elenco caminham juntos na construção do homem que era um mito, observando de perto quem foi Nelson Mandela. Freeman se delicia nesse terreno, apesar de se perder por vezes na semelhança física com o personagem. Até que o rugby entra na história.
De todas as formas de expor a figura sábia e carismática de Mandela por seus atos menos conhecidos, Eastwood escolhe o difícil caminho dos filmes de esporte. Os apertos de mão e os discursos históricos vão dando lugar ao rugby e à importância da seleção do país na história, odiada pelos negros por ser símbolo do que fora o apartheid até pouco tempo. E a partir daí, começa a derrapar em clichês. Existem fórmulas difíceis de driblar quando se trata da soma de esportes e drama no cinema. Talvez por uma quase aparente pressa na realização do filme - chuto alguma coisa relacionada às seleções do Oscar -, que transparece tanto na trilha sonora que insiste em não encaixar com nada quanto em alguns efeitos visuais muito evidentes, Invictus não segue um caminho original. E bote drama, flashbacks com voz off, contusões, e muitas, muuuitas câmeras lentas no terço final do filme.
Era mesmo de se esperar emoção, lágrimas e suor quando o foco dramático passa à Copa do Mundo de Rugby de 1995. Mas vindo do homem que deixava salas de cinema em silêncio ao final da sessão dos seus filmes, abrindo abismos para reflexão sobre as injustiças do mundo e como se pode conviver com isso, Invictus fica raso demais. Que Mandela era um grande homem, nós sabemos. Mas parece que a grande lição ao final do filme é de que rugby é tão legal de ver em câmera lenta quanto futebol americano.


*Maíra Testa é colaboradora do Audiovisueiros

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Lula, o filho do Brasil (Fábio Barreto, 2010)

Companheiros e Companheiras...

Por meio de toda a mística que existia em torno do lançamento do filme, envolvendo questões como: ano eleitoral, a mistificação do "personagem Lula", a utilização ou não de dinheiro público na produção do filme e o seu elevado orçamento (em torno de R$12 milhões) o que se esperava era praticamente uma campanha eleitoral em forma de ficção, mas não é isso o que acontece, "Lula", antes de ser um filme eleitoral, é um filme brasileiro, que capta muito bem o ideal do "sou brasileiro e não desisto nunca". O filme começa com uma peregrinação da família "da Silva", vinda do interior nordestino para o interior paulistano que nos faz lembrar um pouco o filme "Vidas Secas" de Nelson Pereira dos Santos", entretudo pela figura do animal de estimação da família, um cachorro que aqui também leva o nome de outro animal, "Lobo", mas que neste caso fica no local de origem. Depois disso, temos a luta de uma família que chega a São Paulo em busca de oportunidades, de uma vida melhor, de tentar encontrar o próprio destino. Centralizado inicialmente na figura da mãe, o papel que Glória Pires interpreta maravilhosamente bem, o filme mostra um "Luiz Inácio" filho não do Brasil, mas de Dona Lindu, uma mãe que abandona o marido alcoólotra e cria sozinha todos os filhos, a própria mãe sofrimento brasileira. No restante, temos um filme de personagem, que mostra todo o trajeto de Lula, desde o início de sua carreira como metalúrgico no ABC paulista até se tornar um líder sindical. Exatamente, o filme acaba mais ou menos 12 anos antes de Lula se tornar presidente, sendo assim, o filme tenta ao máximo fugir do viés político, construindo uma figura brasileira universal, mas de qualquer forma, no final do filme, imagens do próprio Lula assumindo a presidência da República em 2002 acabam condenando, pelo menos parcialmente, o filme de Fábio Barreto. O filme faz questão de deixar claro que não utilizou dinheiro público, exibindo logo no início o logo de todos (por volta de 15 se não me engano) os patrocinadores, e para um olhar mais treinado fica visível como o dinheiro foi gasto: uma viagem pelo Brasil, detalhamento quase milimétrico das fábricas, cenas de multidão com milhares de figurantes, além de atrizes como Glória e Cléo Pires. Longe de ser um filme excelente, ao menos superou as expectativas.


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros