quinta-feira, 20 de maio de 2010

Viajo porque preciso, volto porque te amo (Marcelo Gomes e Karim Aiñouz, 2009)

Marcelo Gomes e Karim Aiñouz em "Viajo"

Poderíamos resumir o novo filme de Karim Aiñouz e Marcelo Gomes como uma poesia narrativa, com uma "quase" estrutura clássica (começo, meio e fim) permeada por momentos profundamente subjetivos e emotivos.A história do filme se resume a uma viagem pelo nordeste brasileiro, feita pelo geólogo José Renato (Irandhir Santos, Pedra do Reino) onde ele faz uma pesquisa sobre um possível canal que será construído a partir do desvio das águas. José Renato, personagem o qual nunca vemos o rosto, nos conta dados técnicos sobre a sua viagem, sobre o seu trabalho, informações que ele vai coletanto para algum fim, que aos poucos vai ficando em segundo plano.Já no pano de fundo da história, outra narrativa começa a se expandir e tomar conta da situação, é uma leitura sobre a memória, o passado e a nostalgia. Percebemos que José deixou um grande amor para trás e que isso ainda o afeta e o perturba, mas ele sabe que deve continuar, esquecer e iniciar uma nova jornada: "Eta, saudade da porra", clama o personagem, durante suas andanças. Mas quando descobrimos que o seu "amor" na verdade o deixou antes dele partir, nos identificamos e nos solidarizamos ainda mais com José, que ainda remoe aquele sentimento e que a fuga, no momento, é a melhor saída para o esquecimento.

O título, outra grande virtude do filme, foi retirado de um cartaz, que o próprio personagem viu durante a sua trajetória pelo nordeste. O filme mescla imagens em super-8 com digital e em determinados momentos se deixa levar para um viés documental, principalmente quando José entrevista uma garota de programa, durante uma parada. O som se preenche quase que praticamente pela narração do personagem, que alterna momentos de extensos monólogos com silencios sepulcrais.Por fim, e não menos importante, relato a passagem que mais me agradou no filme: no momento em que vemos um casal de senhores, José aponta: "eles moram juntos há 50 anos e nunca dormiram uma noite separados, eles serão uns dos primeiros a serem despejados para a construção do canal. Pedi ao senhor que desligasse o rádio...mas pedi que voltasse, não queria filmá-los separados".Um típico road movie brasileiro, uma belíssima obra,"Viajo porque preciso...Não volto porque ainda te amo" - José Renato


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Tudo pode dar certo (Woody Allen, 2009)

O retorno às raízes de Woody Allen...

O novo filme de Woody Allen, "Tudo pode dar certo" (Eua/França, 2009) retoma alguns conceitos contruídos pelo diretor ao longo de sua carreira. Primeiramente, temos um personagem idoso, o alter-ego de Woody Allen, vivido por Larry David, que reclama da vida e diz ser o único que realmente entende a raça humana, este se envolve com uma jovem, a bela atriz Evan Rachel Wood, ingênua e sedutora, que precisa dar um rumo na sua vida, e temos também um segundo homem, o belíssimo Henry Cavill, um jovem que se apaixona pela menina e recebe ajuda mãe da mesma para conseguir ficar com ela. Adiociona-se o humor inóspito e as situações inusitadas, características marcantes do cinema woodyaliano. Afora a semelhança com um outro filme do mesmo diretor, "Manhattan" (Eua, 1979), pelas relações e pelas caracterísiticas dos personagens, ainda temos a quebra da 4ª parede, quando, logo no início do filme, David olha diretamente para a câmera e fala com espectador: "Eles pagaram ingresso e compraram pipoca para nos ver" - ele avisa.Mais uma vez a exploração do diálogo é o ponto forte, com diversos momentos em que o personagem faz um monólogo para a câmera, lembrando muito uma encenação teatral, mas também temos, em outras circunstâncias, momentos em que as falas são explicativas demais, tornando o filme um pouco cansativo. As atuações são fortes, e salientam as personalidades distintas dos personagens, além disso, aquelas situações inusitadas, citadas no começo do texto, aparecem de formar muito impactantes, como a chegada inesperada da mãe da menina no refúgio em que se "esconde" com David e a futura transformação da própria mãe estabelecendo um relacionamento com dois homens ao mesmo tempo; além da chegada do pai que procura pela sua ex-esposa e nos antecipa para seu final surpreendente.Sobretudo, Woody Allen explora o gênero que o consagrou e que o tornou um dos mestres do cinema, a comédia de tipos e estereótipos, personagens bem demarcados e relacionamentos quase impossíveis, muitas vezes um velho e uma jovem que se apaixonam de maneira inexplicável e que vão acabar sofrendo com isso em um determinado momento.O momentos mais engraçado do filme, coincidentemente ou não, é quando o velho olha para "nós" e nos trata como íntimos, conta algum aspecto de sua vida ou fala sobre o próprio filme: "Este não é um filme alegrinho", ele avisa, parecendo ser o próprio Woody dizendo aquela frase, o que nos faz refletir um pouco sobre o seu cinema, sobre a sua forma de ver as coisas, o trágico visto de uma maneira engraçada, o final feliz que é triste, enfim, as coisas que não se resolvem direito, aquilo que pede continuação. Alguns amam, outros odeiam, mas esse é o nosso Woody...


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros