segunda-feira, 11 de julho de 2011

Bravura Indômita (Joel e Ethan Coen, 2010)

O western revisitado...

Em sua cinematografia recente os irmãos Coen são reconhecidos pela alta dose de ironia e humor negro em seus filmes, encharcados em seus dramas/comédias. Ao tomar como exemplo alguns filmes recentes da dupla: "Onde os fracos não tem vez" (2007) e "Queime depois de ler" (2008), temos uma forte evidência desses elementos, presentes até mesmo em momentos de profunda dramaticidade.
Mas nesse novo filme, "Bravura Indômita" (2010), refilmagem do clássico de 1969, dirigido por Henry Hathaway, baseado no romance de Charles Portis, esses elementos foram deixados de lado e o que prevalece é um certo "retorno as raízes", mas não raízes da dupla e sim do cinema clássico consagrado dos anos 1950: o Western. Esse gênero já havia sido explorado pelos Coen em "Onde os fracos não tem vez", mas naquela o
casião foram acrescentados elementos "modernos" á narrativa, ou seja, o filme era um faroeste, mas se passava nos tempos de hoje.
Não é dessa maneira que "Bravura" é construído, aqui o gênero é explorado como foi no passado, utilizando elemen
tos caros ao Western: na história existe a vingança, o relacionamento entre desconhecidos, o duelo; nos personagens temos xerifes, matadores de aluguel, assassinos; e na constituição da época, cavalos, carroças, vestimentas, enfim, a história é construída nos moldes como se consagrou.
No enredo temos uma menina de 14 anos, Mattie Ross (Hailee Steinfeld), que jura buscar vingança e para isso "contrata" um federal, o Senhor Cogburn (Jeff Bridges, numa atuação de cair o queixo), para ajudar no serviço. Junta-se a essa dupla, um ranger texano, LaBoeuf (Matt Damon) e todos partem nessa empreitada atrás do assassino. A história, narrada linearmente, exceto por um momento, quando Mattie conta como seu pai foi assassinado, nos traz essa busca, ou seria errância? Desses 3 personagens que buscam um assassino e até que ponto cada um pode se sacrificar para atingir seus próprios objetivos: Mattie busca vingança, Sr. Cogburn quer o dinheiro e o ranger tenta representar a lei. Os personagens, muito bem construídos, são esteriótipos dentro do gênero, muito claramente demarcados: o ranger com uniforme e bigode; o federal, bêbado, corajoso e auto-confiante; e a menina indefesa, jovem e ingênua, que sozinha não pode fazer muito. Ela precisa de um mentor, construído na figura do Sr. Cogburn, esse último, o personagem que sofre mais transformação na história.
Enquanto narrativa, o filme segue o padrão do gênero: personagens hostis que são hostis com os demais, mas que aos poucos vão se solidarizando e ficando mais íntimos uns dos outros; peregrinação por diversos ambientes e cenários, passando por diferentes estações do ano; direção de arte, cenografia, figurino e objetos que sempre estão a favor da história, bem como os próprios animais, principalmente os cavalos.
Quanto a linguagem, não existe nada de inovador e acredito que nesse ponto se encontre a graça do filme, a decupagem, os diálogos, as posições e os movimentos de câmera não somente respeitam o gênero como
também prestam uma homenagem. "Bravura" é um clássico na sua essência e aqui cabe uma ressalva, os irmãos Coen se inovam ao reconstruir um gênero que nada tem de novo, ou seja, provam que também dominam a linguagem clássica para poder fazer o básico.
Ah, um fato, não falei da fotografia. Bom, como diria um grande amigo meu: "dizer que a fotografia desse filme é bonita, seria um pleonasmo."
Para finalizar, traçaria um rápido paralelo entre esse filme e um outro clássico do Western, "Rastros de Ódio" (1956) de John Ford, um dos meus favoritos, onde os protagonistas masculinos precisam salvar as personagens femininas, ambos se envolvem e se emocionam com a situação e no final, acabam sozinhos, para o bem e para o mal. E ao pensarmos no primeiro "Bravura", teríamos então um Jonh Wayne duplicado, mas essa deixa fica para a próxima prosa,


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Um lugar qualquer (Sofia Coppola, 2010)

Entre o aprisionamento e a alforria de um personagem

Dois minutos e vinte segundos. É esse o tempo que Sofia Coppola precisa para apresentar Johnny Marco, o personagem principal de Um Lugar Qualquer (Somewhere, 2010), seu novo filme. A seqüência inicial, em único plano, mostra uma Ferrari preta – que mais se ausenta do que se faz presente no enquadramento – dando voltas em uma pista perdida no meio do deserto. O veículo é concretizado muito mais pelo som do que pela imagem, jogando com a distância da Ferrari em relação ao ponto de vista do espectador e também com o formato da pista, à medida que é possível perceber os momentos de aceleração e desaceleração do carro. Depois da repetição quase incômoda das voltas que a Ferrari faz, o veículo finalmente pára – nesse caso, dentro do enquadramento – e dele sai o personagem em questão. E, apesar do momento pedir uma manifestação de fortes emoções, Johnny, blasé, apenas pára ao lado do carro, olhando calmamente um lado e outro do deserto, como a perfeita manifestação do tédio.

Esse tema não é novidade na obra de Sofia Coppola: nos três longas que antecedem Um Lugar Qualquer, o tédio aparece através de adolescentes na década de 1960 nos Estados Unidos, na jovem desencontrada e no ator de meia-idade que se encontram em Tókio e, finalmente, na rainha francesa que se mostrou descontente com a corte francesa do século XVIII. Em todas essas representações, Sofia faz questão de apontar que este sentimento está presente em todas as fases da história e em todos os lugares do mundo, não permitindo que ninguém escape. Preso em uma Los Angeles contemporânea, isso não seria diferente com Johnny Marco.

Em seguida da sequência da Ferrari, outra cena pontua muito bem a situação da personagem: duas loiras gêmeas fazem o famoso pole dance em seu quarto enquanto ele cai no sono. Depois da Ferrari, agora as loiras. Há um leve impulso de reagir numa segunda sequência de pole dance, esforçando-se para sentir alguma coisa, para se empolgar ou se excitar com aquilo, mas a tentativa é mal sucedida. O que vemos, então, é uma constante manifestação de indiferença, através de uma banalização da facilidade com mulheres e com dinheiro. Dois pontos tão valorizados nos dias de hoje – a atração sexual e o sucesso financeiro – são indiferentes a ele. Mas é importante pontuar que o protagonista não abdica de nenhum dos dois; o que acontece é uma falta de ação para consegui-las e até uma falta de reação para rejeitá-las. Em estado de entorpecimento, ele segue acompanhando o fluxo das situações, sendo carregado sem tomar parte de nada do que lhe acontece.

O tédio, a indiferença e o torpor observados em Johnny Marco caracterizam uma situação de aprisionamento do personagem, que tem sua maior expressão na sequência em que ele, sentado, espera o gesso, que envolve toda a sua cabeça, secar, com a respiração forte e ritmada, enquanto a câmera, bem lentamente, aproxima-se dele, pontuando qual é o cenário desse personagem: um ambiente cada vez mais apertado, no qual a câmera o sufoca, aproximando-se e delimitando enquadramentos fixos e específicos. Ele não reage a isso, não tenta mudar seu estado, mas também não mostra contentamento com sua situação, quase como se houvesse uma conformação em estar lá porque não há outro caminho que possa ser seguido. É aí que o filme apresenta-lhe uma surpresa, um contraponto que poderia ser evidente e banal, mas que, por ser tratado com sutileza, ganha importância e profundidade. Esse contraponto chama-se Cleo.

Sua filha o encanta de maneira gradual: o primeiro contato deles, apresentado pelo filme, está na aula de patinação no gelo dela. Ele não mostra esforço nenhum em prestar atenção na filha, mas pouco a pouco ele deixa de dar a atenção ao celular para olhá-la durante a coreografia. O final da sequência mostra Marco emocionado, a ponto de chorar, enquanto Cleo sorri satisfeita e contente. O filme está repleto de oposições e é interessante chamar a atenção para uma delas aqui, que posiciona essa sequência e a segunda sequência do pole dance em lugares contrários: enquanto vemos o esforço de Johnny Marco para mentir que tem interesse pela dança das loiras gêmeas, acompanhamos aqui, na sequência da dança de Cleo, uma ausência de esforço, que termina como uma genuína manifestação de interesse. Esse é o primeiro sinal que ele dá a respeito de uma mobilização interna, quando ele abandona o estado em que não sente nada para passar a sentir alguma coisa. Aqui, mesmo que sutil, existe uma reação dele, a primeira do filme.

Cleo vai voltar à vida do pai no momento em que a mãe dela, Layla, decide abdicar, pelo menos por um tempo, do seu papel materno. A convivência entre os dois se intensifica e o carinho que um tem com o outro se torna mais evidente. Cleo irá para o acampamento em alguns dias, e a iminência da aproximação dessa data deixa tanto Johnny quanto a filha apreensivos com a separação, que é adiada em dois momentos: quando ele a convida para ficar um dia mais no Chateau Marmont – o hotel de Los Angeles famoso por hospedar celebridades – e quando eles mudam a rota do acampamento dela para Las Vegas.

Depois de acompanhar o pai na viagem à Itália e conviver com o amigo de Johnny, Cleo e seu pai programam-se para um dia que é só deles, no qual a relação “pai e filha” é o único laço que se estabelece: em um dia ensolarado, eles jogam ping-pong, brincam na piscina e tomam sol, e é esse o momento que exprime a contribuição de Cleo à vida do pai. Lembremos da sequência já citada a respeito do molde de gesso que envolve toda a cabeça de Johnny Marco, que espera que ele seque com concentra-se numa respiração que aparece forte enquanto a câmera, calmamente, aproxima-se dele, fechando o quadro cada vez mais – é bom lembrar que o propósito desse molde é o de tornar Marco envelhecido, a partir de uma maquiagem. A sequência na qual ele toma sol com a filha apresenta uma situação completamente diferente: ouvimos pássaros e a música de Julian Casablancas – I’ll try anything once – enquanto os dois, lado a lado, repousam sobre as esteiras da piscina; a câmera executa um movimento de afastamento dos personagens, abrindo o enquadramento e mostrando o ambiente calmo que os envolve; a simbologia é completada com um plano rápido do céu.


Apesar de manter rígidas semelhanças com Encontros e Desencontros (lost in translation, 2003), Um Lugar Qualquer, diferente dos três longas-metragens anteriores de Sofia Coppola. Este apresenta uma situação otimista para seu personagem: enquanto Johnny Marco é aprisionado pelas circunstâncias, Cleo aparece, não exatamente para libertá-lo, mas para mostrar que a libertação é possível. É a sua capacidade de não ignorar a possibilidade da mudança que difere Marco e o filme dos demais personagens e filmes de Coppola. É como se aquele sentimento de mudança, que rondava tanto o final de Encontros e Desencontros, mas que não ia além de uma sombra sobre Bob Harris e Charlotte, finalmente se concretizasse em um movimento pró-ativo do personagem principal.

Se todos os filmes de Sofia Coppola reiteram sempre o mesmo mote, abordando o tédio como sentimento-base dos personagens, aprisionados em seus ambientes e apontando-os como seres cuja única mobilização é o ato de excluírem-se de seus universos – muito mais através do entorpecimento do que de algum movimento que visa mudança – essa é a primeira vez em que um personagem de Sofia Coppola tem a possibilidade de alforriar-se, de agir, de reagir, de movimentar-se e de comandar-se, sem que a câmera o impeça, e sem que ele impeça a si mesmo.


*Natália Vestri é colaboradora do Audiovisueiros

quinta-feira, 3 de março de 2011

Minhas mães e meu pai (Lisa Cholodenko, 2010)

Filhos de mães lésbicas querem conhecer "O doador de sêmen"

A premissa é simples, a filha mais velha Joni (Mia Wasikowaska), ao completar a maioridade, encoraja o irmão mais novo Laser (Josh Hutcherson) a encontrar o pai biológico do casal, sem que "as mães" Jules (Julianne Moore) e Nic (Annette Bening) saibam. A partir de uma ligação, os filhos descobrem quem foi o "doador" e propôem um encontro. A partir disso se iniciam diversas situações que vão tomando proporções cada vez mais catastróficas.
De início, somente os filhos fazem um contato com o pai biológico, Paul (Mark Ruffalo), mas logo as "mães" ficam sabendo e também decidem conhecer o homem, marcando um almoço com caráter "familiar". Jules trabalha com jardinagem e decide ajudar no novo estabelecimento de Paul, que administra um restaurante. Eles iniciam um contato mais amplo, enquanto os filhos vivem um novo momento em suas vidas, a presença do ser masculino é recente e gera bastante curiosidade. Paul, por sua vez, é colocado numa situação inusitada, o pai de primeira viagem que já conhece os filhos na fase adolescente (ou aborrecente) tenta se enquadrar na condição de pai ausente, não por escolha, mas por falta de, e ensina o pouco que sabe aos dois filhos, dá conselhos para o mais novo em relação a amizades e tenta mostrar um outro lado seu. Já para a menina, ele tenta ser o pai amoroso e conselheiro que quase sempre vai de choque com os ensinamentos das "mães".
Tudo começa a ficar mais complicado quando Paul e Jules iniciam um relacionamento mais sério. Ao mesmo tempo que isso acontece, os filhos do casal vão ficando mais rebeldes e começam a ficar do lado de Paul, as mães começam a ter problemas para resolver questões relacionadas a sexo entre outros departamentos. A relação de Jules e Nic também começa a ser afetada, baseado principalmente na mentira que Jules esconde.
O filme é marcado por um certo conservadorismo americano na medida que Paul adentra a vida dos filhos. Nic posuiu um gênio difícil, se colocando como patriarca da família, e muitas vezes subjulga a posição da outra mulher, Jules. O relacionamento entra em colapso quando Nic descobre sobre a traição de Jules em um jantar na casa de Paul, é nesse momento que algumas constatações sobre questões familiares são colocadas em cheque, como a presença ou ausência do pai, a homossexualidade e a criação dos filhos, principalmente a do menino, e mais do que tudo, mostra quais problemas são ocasionados com essa clara tendência para o futuro: a criação de filhos por pais h
omossexuais. De qualquer forma, o filme coloca de maneira muito clara os dois lados da moeda, da presença do pai, o que pode ocasionar e como pode ser bom e ruim ao mesmo tempo. Claro que neste caso não estamos falando de qualquer pai, estamos falando de Mark Ruffalo, mas o que importa é o exemplo.
Os atores estão muito bem caracterizados no filme, inclusive as crianças e o que nasce como uma comédia, termina como um drama. Nesse aspecto, o filme engana, ele cria uma situação que é, no mínimo engraçada, e depois turbina a narrativa com as consequências dessas mães e dese pai. O filme tenta abordar de maneira até certo ponto engraçada alguns aspectos incomuns de uma nova constituição familiar, entretanto, como já colocado anteriormente, mais uma vez o conservadorismo americano prevalece e diz não. Não em diversos aspectos, Jules sente atração por Paul, seria um questionamento sobre sua sexualidade? Ela seria realmente homossexual? Ela se descobre ao encontrar Paul? E quanto a Nic, ela se sente o homem da relação? Mas isso não seria o oposto do que elas (lésbicas) estariam realmente tentando provar? Que nesse tipo de relação não existe essa coisa de "homem da relação", e sim duas mulheres de fato? Enfim, de todo jeito, o filme carrega (assim como muitos títulos recentes) toda uma crítica sobre a nova pirâmide familiar e a sua novidade, como lidar com a chegada do outro, suscitada pela curiosidade dos filhos? É mais ou menos isso que o filme coloca, mas não necessariamente responde.


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Inverno da Alma (Debra Granik, 2010)

Filme independente americano surpreende com fortes interpretações.

Antes de falar do filme de fato, acho importante salientar que não existe nenhuma grande distribuidora por trás dessa produção, exatamente como vem acontecendo com alguns filmes indicados ao Oscar de melhor filme nos últimos anos, a exemplo de Pequena Miss Sunshine (2006) e Juno (2007). Eu gostaria de achar que o Oscar está proporcionando uma maior abertura para produções independentes, gostaria. Mas de qualquer forma o filme chamou bastante atenção pelo fato de ter vencido o Prêmio do Júri do Festival de Sundance e o Gotham Awards, além de ter sido exibido e vencido dois prêmios no Festival de Berlim.

Inverno da Alma conta a história de uma menina de 17 anos, Ree Dolly (Jennifer Lawrence), que toma conta dos dois irmãos menores e de sua mãe doente. Logo de início ficamos sabendo que seu pai desapareceu no mundo e deixou sua família, mas agora o pai precisa retornar e comparecer em uma audiência judicial ou todos os bens da família serão tomados pelo governo. A partir daí, a menina mais velha inicia uma busca por seu pai, descobrindo algumas verdades até então omitidas, como seu envolvimento com o tráfico de drogas. O filme inicialmente choca pelo amadurecimento da protagonista, com uma interpretação de encher os olhos, encarada com seriedade e coragem, onde ela se deixa quase sempre em segundo plano, pensando no bem maior dos imãos, uma menina que encara a vida sem lástimas ou ressentimentos, que sabe cozinhar, cuida da casa, da mãe e dos irmãos, enfim, por mais que a condição social seja evidente, pela falta de comida, pela ajuda dos vizinhos e pela tentativa de encontrar emprego nas forças armadas ela não é o foco principal do filme, isso quer dizer, a questão está colocada, mas o filme não trabalha somente em cima disso.

O ponto central do filme é a constituição familiar, o que o torna mais interessante. Os dois irmãos menores entendem o que está acontecendo e protegem a irmã mais velha, o que demonstra, acima de tudo, que eles estão unidos. O tio Teardrop (John Hawkes), com uma interpretação chocante, que desempenha um papel importantíssimo como um falso mentor da menina, nega ajuda no início, mas depois se redime, ele representa um personagem dúbio que funciona como um divisor de águas na narrativa, tendo comportamentos diferentes no início e no fim da história. E ainda temos outras questões que atingem diretamente os três irmãos, como o fato de que alguns parentes desejam adotar (ficar) com o irmão mais novo para diminuir as despesas da casa e também as constantes confusões em que Ree se envolve na procura de seu pai, onde sempre sai machucada. Mas de qualquer maneira, os irmãos, juntamente com a mãe, que aparece muito pouco durante toda a narrativa, se mantêm firmes, Ree passa alguns ensinamentos para os pequenos, algumas artimanhas na cozinha além de ensina a atirar, para uma possível proteção em sua ausência. O filme nos faz refletir sobre a função de uma família, sobre o porquê de sua estruturação e de como alguém pode crescer apenas cuidando dos outros e sem saber de fato o que é "ser cuidado" por alguém.

Mesmo sem possuir um elenco conhecido, o filme é marcado por ótimas interpretações, até mesmo de personagens coadjuvantes como o policial que conhece os esquemas em que o pai da menina estava envolvido, e também a mulher que inicialmente reprime Ree, mas depois mostra onde estava “escondido” o corpo do pai da menina. As crianças também se destacam, e isso com certeza é enfatizado pela excelente seqüência em que aprendem a caçar esquilos, pois existe nesta cena uma clara demonstração de confiança, que é salientada por um silêncio inicial depois por algumas trocas de olhares entre a irmã mais velha e a mais nova, em seguida pela captura dos esquilos, então Ree ensina o irmão a tirar a pele do bicho e o encoraja mesmo contra a vontade do menino. O elenco todo atua em alto nível, tornando a trama bastante real e a história mais palpável, ou seja, você acredita que ela existiu de fato.

Outro ponto bastante interessante e bastante explorado no filme é a fotografia, com suas cores acinzentadas (em um tom quase monocromático) que funciona como uma metáfora para a vida da protagonista, sem brilho, praticamente sem cor, e agora presa em uma busca que pode tirar seus bens mais preciosos. Enquanto a arte tenta diferenciar pelos figurinos dos três irmãos alguns de seus sentimentos, com cores mais vivas para os irmãos menores, tentanto destacar a importância da infância e cores mais escuras para a irmã mais velha, que passa por um momento conturbado.
O filme é realmente muito interessante, muito bem estruturado a partir de um roteiro que deve ter deixado margem para possíveis improvisações dos atores, mas que não se perde em nenhum momento e de uma direção feminina (Debra Granik) que consegue colocar uma intensa carga de sensibilidade e ternura no filme, sem cairo no clichê.
Do meu ponto de vista só pecou em um ponto: o violão, utilizado como elemento narrativo poderia ser muito mais significativo se tivesse aparecido em outros momentos durante o filme, ele poderia ser o fio condutor, o que tornaria, talvez, a história ainda mais interessante. A se destacar o início do filme, onde ouvimos uma bela canção executada por um violão, que poderia facilmente ser o mesmo intrumento do final do filme e conduzido pelo mesmo personagem.

Um filme maravilhoso que faz pensar sobre a estruturação familiar, visto que estamos em um momento propício, não somente pelos contantes filmes que tratam desse assunto como Tetro (2010) e Somewhere (2010), mas pelo próprio mundo que hoje, passa por muitas mudanças, inclusive familiares.


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A rede social (David Fincher, 2010)

Ou como o mundo aprendeu a cultuar alguém que passou por cima de todos para atingir seus objetivos.

A premissa é básica e conhecida: a história do criador do Facebook, Mark Zuckerberg. O filme já começa num ritmo alucinante, em um bar, quando Mark conversa com uma garota, e pela velocidade da conversa ficamos por dentro do universo tratado indicando logo de cara que o ambiente multimidiático da internet está incorporado ao fime. Na história, Mark é um inteligente nerd excluído que passa mais tempo na frente do computador do que fazendo qualquer outra coisa e aos poucos vai descobrindo que as pessoas se interessam muito pelas redes virtuais, pelo fato de poderem interagir na "web", contar sobre suas próprias vidas na internet, em um lugar onde todos os seus "amigos" possam ler e comentar. Com a ajuda de seu amigo Eduardo Saverin, eles criam o "TheFacebook", um site de relacionamentos que começa de maneira modesta, apenas dentro do ambiente universitário. Mas com o decorrer da história Mark se afasta de Eduardo e se torna amigo de Sean Parker, um cara que acredita ter a fórmula do sucesso para o ambicioso projeto de Mark, e sugere que ele tire o prefixo "the" da rede, para se transformar somente em "Facebook".Enquanto conteúdo e proposta narrativa, o filme não é inovador, muito pelo contrário, é até clássico demais, contado em flashback, a partir do julgamento de Mark, sobre ter supostamente roubado a ideia do Facebook dos gêmeos Cameron e Tyler Winklevoss, estudantes e esportistas de Harvard. O protagonista ganha pontos por ser um "herói" nada carismático, e que vai se tornando um vilão no decorrer do filme, belamente coroado no final com a frase: "Você não é um idiota, mas está o tempo todo tentando ser um." Os irmãos gêmeos merecem grande destaque, por constituírem o tempo todo personagens esteriótipos que fogem do próprio esteriótipo, formando um paradoxo, é como se eles estivessem fugindo da própria caracterização que lhes compete. Justin Timberlake no papel de Sean Parker rouba a cena fazendo um papel que só poderia ter sido escrito pra ele.Contudo, acredito que, o filme em si próprio gera uma enorme contradição: como uma pessoa que não possuía amigo algum, e também não era seu objetivo possuí-lo, pode criar uma rede em que um dos principais objetivos é ter o maior número de amigos possível, aumentando assim a sua rede social? Ou seja, Mark criou um dos maiores sites de relacionamento do mundo, sem se relacionar com ninguém e é isso que o faz ser um gênio certo? Talvez sim, talvez não. A discussão vai além e nos leva a crer que realmente podemos consumir absolutamente tudo, e nunca, ou quase nunca, nos importamos de onde ela veio, e por quais processos passou. Isso é Mark Zuckerberg, uma pessoa que trocou seu melhor amigo e possivelmete a única pessoa que realmente gostava dele no mundo, por uma rede social e seus frutos. Não estou sendo hipócrita, tenho facebook e adoro usá-lo, mas não custa nada refletir sobre o porquê de certos fenômenos darem tão certo. Reafirmo, o filme não tem nada de genial, mas propôe uma reflexão mais do que profunda em um mundo dominado por conexões online, onde se evita o cara-a-cara.


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Filmes em 1ª pessoa

Rec, Rec 2 e a questão do ponto de vista...

No prime
iro filme da agora constituída franquia "REC" (Além do segundo filme que já foi lançado, teremos mais outros dois, prometidos para a segunda metade desse ano), uma repórter, e seu fiel cameraman "Pablo" decidem acompanhar um dia de um grupo de bombeiros, fazendo uma reportagem para uma TV espanhola. Eles então recebem um chamado, vindo de um prédio, onde uma mulher ficou presa em seu apartamento, e lá descobrem uma ameaça muito maior.
Independente do acontecimento estabelecido dentro do filme, a discussão que proponho aqui é sobre, exclusivamente, o ponto de vista. Durante todo o tempo fílmico, a visão que é estabelecida para nós, espectadores, é a do cameraman Pablo, nosso olhar é guiado por sua câmera de reportagem, unicamente. Quando a câmera é desligada, temos um black, não existe um corte para outra câmera, enfim, somos Pablo, e essa é nossa única opção, somos obrigados a nos identificar com um único personagem pelo seu caráter subjetivo, ou seja, a partir do momento que a câmera entra no prédio infectado, não podemos "escolher" não entrar, convivemos com a repórter e com os outros bombeiros por uma condição pré-estabelecida, a de que a câmera de Pablo será a única opção do filme.
Por outro lado, nos identificamos com Pablo sem nunca vê-lo, sem conhecer seu rosto, apenas ouvimos sua voz. O fato inusitado é que nos identificamos com o único personagem que não podemos ver no filme, ou seja, estamos conectados o tempo todo em que a diegese fílmica acontece com um personagem que está no extra-campo, não conseguimos saber se o verdadeiro Pablo estaria atrás da câmera, ou se o fotógrafo nos "engana" o tempo todo.
Diferentemente do primeiro filme, "Rec 2 - Possuídos", aborda a situação de uma maneira um pouco mais fragmentada. A história acontece 1 hora depois do fim do primeiro filme e mostra um grupo especial da polícia que entra no prédio, que no momento está em quarentena. Aqui temos, não somente uma câmera, mas várias, entretanto, todas elas continuam representando uma subjetiva de uma personagem. São câmeras que estão colocadas nos capacetes dos policiais e uma outra que presente com um g
rupo de jovens (essa última, que do meu "ponto de vista", é a parte fraca da história). O fato é que, agora temos diversos pontos de vista, que se mesclam e muitas vezes se confundem, mas ainda temos uma "câmera-chefe", a de um novo cameraman que acompanha o grupo de soldados.
De qualquer maneira, seja enquanto proposta narrativa, seja para uma solução da história, perguntamos: por que a utilização de mais de um ponto de vista? O consagrado ponto de vista único em Rec 1 perde força no segundo filme, já que agora temos a segmentação dos olhares, o que não deixa de ser interessante, mas concordamos que existe uma menor tendência à identificação nesse formato. Talvez os realizadores tenham sentido medo de fazer Rec 2 parecido com o primeiro filme, mas a divisão de um único ponto de vista em vários acabou fazendo com que o filme fosse mais "normal" do que a proposta original, agora podemos, mesmo que não claramente, sentir a presença do corte, e não existe momento de black total, porque sempre existirá outra câmera. E dificilmente seriamos enganados nessa nova proposta, porque nós podemos ver quem está atrás da câmera, sempre que o ponto de vista é alternado. Enfim, acredito que a continuação, embora com mais requinte, teve menos audácia que o primeiro, e deixou o espectador mais protegido da narrativa, já que, se Rec 2 fosse um game e existisse a possibilidade de escolha de personagem, poderíamos facilmente escolher o caminho mais fácil, escolhendo o grupo de jovens, e se o jogo fosse mais aberto ainda, poderíamos escolher não entrar no prédio e sendo assim não haveria jogo e nem filme. Rec 2 foi medroso por dar alternativa ao interator, alternativa essa que o primeiro filme não dá, nem nos momentos mais dramáticos.

Esperemos os outros dois e seus futuros pontos de vista...


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros