segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A rede social (David Fincher, 2010)

Ou como o mundo aprendeu a cultuar alguém que passou por cima de todos para atingir seus objetivos.

A premissa é básica e conhecida: a história do criador do Facebook, Mark Zuckerberg. O filme já começa num ritmo alucinante, em um bar, quando Mark conversa com uma garota, e pela velocidade da conversa ficamos por dentro do universo tratado indicando logo de cara que o ambiente multimidiático da internet está incorporado ao fime. Na história, Mark é um inteligente nerd excluído que passa mais tempo na frente do computador do que fazendo qualquer outra coisa e aos poucos vai descobrindo que as pessoas se interessam muito pelas redes virtuais, pelo fato de poderem interagir na "web", contar sobre suas próprias vidas na internet, em um lugar onde todos os seus "amigos" possam ler e comentar. Com a ajuda de seu amigo Eduardo Saverin, eles criam o "TheFacebook", um site de relacionamentos que começa de maneira modesta, apenas dentro do ambiente universitário. Mas com o decorrer da história Mark se afasta de Eduardo e se torna amigo de Sean Parker, um cara que acredita ter a fórmula do sucesso para o ambicioso projeto de Mark, e sugere que ele tire o prefixo "the" da rede, para se transformar somente em "Facebook".Enquanto conteúdo e proposta narrativa, o filme não é inovador, muito pelo contrário, é até clássico demais, contado em flashback, a partir do julgamento de Mark, sobre ter supostamente roubado a ideia do Facebook dos gêmeos Cameron e Tyler Winklevoss, estudantes e esportistas de Harvard. O protagonista ganha pontos por ser um "herói" nada carismático, e que vai se tornando um vilão no decorrer do filme, belamente coroado no final com a frase: "Você não é um idiota, mas está o tempo todo tentando ser um." Os irmãos gêmeos merecem grande destaque, por constituírem o tempo todo personagens esteriótipos que fogem do próprio esteriótipo, formando um paradoxo, é como se eles estivessem fugindo da própria caracterização que lhes compete. Justin Timberlake no papel de Sean Parker rouba a cena fazendo um papel que só poderia ter sido escrito pra ele.Contudo, acredito que, o filme em si próprio gera uma enorme contradição: como uma pessoa que não possuía amigo algum, e também não era seu objetivo possuí-lo, pode criar uma rede em que um dos principais objetivos é ter o maior número de amigos possível, aumentando assim a sua rede social? Ou seja, Mark criou um dos maiores sites de relacionamento do mundo, sem se relacionar com ninguém e é isso que o faz ser um gênio certo? Talvez sim, talvez não. A discussão vai além e nos leva a crer que realmente podemos consumir absolutamente tudo, e nunca, ou quase nunca, nos importamos de onde ela veio, e por quais processos passou. Isso é Mark Zuckerberg, uma pessoa que trocou seu melhor amigo e possivelmete a única pessoa que realmente gostava dele no mundo, por uma rede social e seus frutos. Não estou sendo hipócrita, tenho facebook e adoro usá-lo, mas não custa nada refletir sobre o porquê de certos fenômenos darem tão certo. Reafirmo, o filme não tem nada de genial, mas propôe uma reflexão mais do que profunda em um mundo dominado por conexões online, onde se evita o cara-a-cara.


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Filmes em 1ª pessoa

Rec, Rec 2 e a questão do ponto de vista...

No prime
iro filme da agora constituída franquia "REC" (Além do segundo filme que já foi lançado, teremos mais outros dois, prometidos para a segunda metade desse ano), uma repórter, e seu fiel cameraman "Pablo" decidem acompanhar um dia de um grupo de bombeiros, fazendo uma reportagem para uma TV espanhola. Eles então recebem um chamado, vindo de um prédio, onde uma mulher ficou presa em seu apartamento, e lá descobrem uma ameaça muito maior.
Independente do acontecimento estabelecido dentro do filme, a discussão que proponho aqui é sobre, exclusivamente, o ponto de vista. Durante todo o tempo fílmico, a visão que é estabelecida para nós, espectadores, é a do cameraman Pablo, nosso olhar é guiado por sua câmera de reportagem, unicamente. Quando a câmera é desligada, temos um black, não existe um corte para outra câmera, enfim, somos Pablo, e essa é nossa única opção, somos obrigados a nos identificar com um único personagem pelo seu caráter subjetivo, ou seja, a partir do momento que a câmera entra no prédio infectado, não podemos "escolher" não entrar, convivemos com a repórter e com os outros bombeiros por uma condição pré-estabelecida, a de que a câmera de Pablo será a única opção do filme.
Por outro lado, nos identificamos com Pablo sem nunca vê-lo, sem conhecer seu rosto, apenas ouvimos sua voz. O fato inusitado é que nos identificamos com o único personagem que não podemos ver no filme, ou seja, estamos conectados o tempo todo em que a diegese fílmica acontece com um personagem que está no extra-campo, não conseguimos saber se o verdadeiro Pablo estaria atrás da câmera, ou se o fotógrafo nos "engana" o tempo todo.
Diferentemente do primeiro filme, "Rec 2 - Possuídos", aborda a situação de uma maneira um pouco mais fragmentada. A história acontece 1 hora depois do fim do primeiro filme e mostra um grupo especial da polícia que entra no prédio, que no momento está em quarentena. Aqui temos, não somente uma câmera, mas várias, entretanto, todas elas continuam representando uma subjetiva de uma personagem. São câmeras que estão colocadas nos capacetes dos policiais e uma outra que presente com um g
rupo de jovens (essa última, que do meu "ponto de vista", é a parte fraca da história). O fato é que, agora temos diversos pontos de vista, que se mesclam e muitas vezes se confundem, mas ainda temos uma "câmera-chefe", a de um novo cameraman que acompanha o grupo de soldados.
De qualquer maneira, seja enquanto proposta narrativa, seja para uma solução da história, perguntamos: por que a utilização de mais de um ponto de vista? O consagrado ponto de vista único em Rec 1 perde força no segundo filme, já que agora temos a segmentação dos olhares, o que não deixa de ser interessante, mas concordamos que existe uma menor tendência à identificação nesse formato. Talvez os realizadores tenham sentido medo de fazer Rec 2 parecido com o primeiro filme, mas a divisão de um único ponto de vista em vários acabou fazendo com que o filme fosse mais "normal" do que a proposta original, agora podemos, mesmo que não claramente, sentir a presença do corte, e não existe momento de black total, porque sempre existirá outra câmera. E dificilmente seriamos enganados nessa nova proposta, porque nós podemos ver quem está atrás da câmera, sempre que o ponto de vista é alternado. Enfim, acredito que a continuação, embora com mais requinte, teve menos audácia que o primeiro, e deixou o espectador mais protegido da narrativa, já que, se Rec 2 fosse um game e existisse a possibilidade de escolha de personagem, poderíamos facilmente escolher o caminho mais fácil, escolhendo o grupo de jovens, e se o jogo fosse mais aberto ainda, poderíamos escolher não entrar no prédio e sendo assim não haveria jogo e nem filme. Rec 2 foi medroso por dar alternativa ao interator, alternativa essa que o primeiro filme não dá, nem nos momentos mais dramáticos.

Esperemos os outros dois e seus futuros pontos de vista...


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros