quinta-feira, 3 de março de 2011

Minhas mães e meu pai (Lisa Cholodenko, 2010)

Filhos de mães lésbicas querem conhecer "O doador de sêmen"

A premissa é simples, a filha mais velha Joni (Mia Wasikowaska), ao completar a maioridade, encoraja o irmão mais novo Laser (Josh Hutcherson) a encontrar o pai biológico do casal, sem que "as mães" Jules (Julianne Moore) e Nic (Annette Bening) saibam. A partir de uma ligação, os filhos descobrem quem foi o "doador" e propôem um encontro. A partir disso se iniciam diversas situações que vão tomando proporções cada vez mais catastróficas.
De início, somente os filhos fazem um contato com o pai biológico, Paul (Mark Ruffalo), mas logo as "mães" ficam sabendo e também decidem conhecer o homem, marcando um almoço com caráter "familiar". Jules trabalha com jardinagem e decide ajudar no novo estabelecimento de Paul, que administra um restaurante. Eles iniciam um contato mais amplo, enquanto os filhos vivem um novo momento em suas vidas, a presença do ser masculino é recente e gera bastante curiosidade. Paul, por sua vez, é colocado numa situação inusitada, o pai de primeira viagem que já conhece os filhos na fase adolescente (ou aborrecente) tenta se enquadrar na condição de pai ausente, não por escolha, mas por falta de, e ensina o pouco que sabe aos dois filhos, dá conselhos para o mais novo em relação a amizades e tenta mostrar um outro lado seu. Já para a menina, ele tenta ser o pai amoroso e conselheiro que quase sempre vai de choque com os ensinamentos das "mães".
Tudo começa a ficar mais complicado quando Paul e Jules iniciam um relacionamento mais sério. Ao mesmo tempo que isso acontece, os filhos do casal vão ficando mais rebeldes e começam a ficar do lado de Paul, as mães começam a ter problemas para resolver questões relacionadas a sexo entre outros departamentos. A relação de Jules e Nic também começa a ser afetada, baseado principalmente na mentira que Jules esconde.
O filme é marcado por um certo conservadorismo americano na medida que Paul adentra a vida dos filhos. Nic posuiu um gênio difícil, se colocando como patriarca da família, e muitas vezes subjulga a posição da outra mulher, Jules. O relacionamento entra em colapso quando Nic descobre sobre a traição de Jules em um jantar na casa de Paul, é nesse momento que algumas constatações sobre questões familiares são colocadas em cheque, como a presença ou ausência do pai, a homossexualidade e a criação dos filhos, principalmente a do menino, e mais do que tudo, mostra quais problemas são ocasionados com essa clara tendência para o futuro: a criação de filhos por pais h
omossexuais. De qualquer forma, o filme coloca de maneira muito clara os dois lados da moeda, da presença do pai, o que pode ocasionar e como pode ser bom e ruim ao mesmo tempo. Claro que neste caso não estamos falando de qualquer pai, estamos falando de Mark Ruffalo, mas o que importa é o exemplo.
Os atores estão muito bem caracterizados no filme, inclusive as crianças e o que nasce como uma comédia, termina como um drama. Nesse aspecto, o filme engana, ele cria uma situação que é, no mínimo engraçada, e depois turbina a narrativa com as consequências dessas mães e dese pai. O filme tenta abordar de maneira até certo ponto engraçada alguns aspectos incomuns de uma nova constituição familiar, entretanto, como já colocado anteriormente, mais uma vez o conservadorismo americano prevalece e diz não. Não em diversos aspectos, Jules sente atração por Paul, seria um questionamento sobre sua sexualidade? Ela seria realmente homossexual? Ela se descobre ao encontrar Paul? E quanto a Nic, ela se sente o homem da relação? Mas isso não seria o oposto do que elas (lésbicas) estariam realmente tentando provar? Que nesse tipo de relação não existe essa coisa de "homem da relação", e sim duas mulheres de fato? Enfim, de todo jeito, o filme carrega (assim como muitos títulos recentes) toda uma crítica sobre a nova pirâmide familiar e a sua novidade, como lidar com a chegada do outro, suscitada pela curiosidade dos filhos? É mais ou menos isso que o filme coloca, mas não necessariamente responde.


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros