quinta-feira, 25 de março de 2010

O segredo dos seus olhos (Juan José Campanella, 2009)

O segredo dos seus olhos, Juan José Campanella

A notória ascensão do cinema argentino não é nenhuma novidade, quando se pensa em cinema latino-americano de qualidade, lembramos sempre de nossos queridos "hermanos". Em "O segredo dos seus olhos", o que encontramos é um cinema maduro e consciente, que "bri
nca" com os costumes, as gírias, os tipos e o humor do povo argentino. No elenco, o já consagrado ator Ricardo Darín e a atriz Soledad Villamil formam o casal protagonista numa história que joga com o passado e o presente, tendo como fio narrativo um crime brutal não resolvido: o estupro e assassinato de uma mulher. A narrativa se desenvolve a partir do desenrolar deste caso, dado de um único ponto de vista, ponto de vista este que somente será outro quando a resolução da história será dada pela atitude surpreendente do marido viúvo. O filme conta com interpretações impressionantes, marcada por diálogos muito bem desenvolvidos e uma narração em voz over, cheia de nostalgia e um certo tom de reflexão, dada pelo personagem principal. A montagem paralela alterna não somente situações dramáticas distintas mas também tempos históricos, sendo assim, podemos perceber traços de personalidade diferente nos mesmos personagens, que num 1º momento demostram uma certa excitação e ingenuidade, combinados a uma certa hesitação perante a possibilidade de uma paixão sem limites; e, num 2º momento, apresentam o amadurecimento de uma vida que poderia ter sido melhor aproveitada, e agora decidem, de uma maneira muito mais racional e espontânea, retomar o amor adormecido. O crime passional, então resolvido pelo tom de confiança estabelecido entre o casal cria as condições necessárias para o estabelecimento de uma relação amorosa.

Com uma câmera segura e realista, que tenta se aproximar ao máximo dos personagens, se estabelece uma situação de cumplicidade para com os fatos apresentados (a se destacar o primorável plano-sequência de mais de 4 minutos, executado com excelência técnica e uma primorosa criação dramática). Desbancando o filme alemão "A Fita Branca" (Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2009) no oscar de melhor filme estrangeiro deste ano "O segredo dos seus olhos" é com certeza um filme que merece ser visto. Como diz aquele outro: "Se o tango não agrada, a se ver o cinema, muito mais adulto que o nosso...


*Renan lima é editor do Audiovisueiros

sábado, 6 de março de 2010

Guerra ao Terror (Kathryn Bigelow, 2009)

A guerra de poucos...ou de muitos?

Mesmo ofuscado pelo rival "Avatar" concorrente direto pelo oscar de melhor filme, "Guerra ao Terror" conseguiu seu espaço e repercutiu de maneira intensa na mídia internacional. O filme mostra o cotidiano de um grupo especial anti-bombas que atua no Iraque. Até aí muitos pensariam: "E lá vem mais um filme de guerra" mas o que se tem é um retrato impressionante e até certo ponto revelador sobre a psiquê desses soldados americanos. Deixando de lado o espírito nacionalista americano juntamente com o "novo" governo Obama (o que na minha opinião será determinante para o resultado do oscar no próximo domingo), o retrato que se faz é de pessoas comuns que tiveram suas vidas completamente modificadas por uma guerra que não lhes pertence e que de um ponto de vista mais externo e abrangente não faz o menor sentido. Os personagens, reais, são dominados pela loucura, uns mais do que outros, e pela pergunta, que de maneira subjetiva, atinge o filme: "O que estamos fazendo aqui?" A "guerra" levada de dentro para fora em um país que esconde o rosto (literalmente) nos faz pensar o que se passa na cabeça de um soldado americano que vive cada dia como se fosse o último, contanto os minutos para voltar para casa. O esquadrão anti-bombas se vê a mercê de um comandante já atingido pela loucura que toma atitudes inesperadas e suicidas como, em uma das passagens do filme, quando retira o agasalho de proteção durante um desativamento de bomba. Vale ressaltar a atitude da câmera como elemento atuante, alternado momentos de grande euforia e agitação, zoom in e zoom out, além de muita câmera na mão; com momentos mais calmos, onde podemos respirar e tentar compreender a complexidade pela qual se passa o personagem em guerra. A montagem, primorosa, caminha nos mesmos moldes da fotografia, se valendo de planos curtos e planos longos em demanda da intenção dramática. Numa das sequências finais do filme, um soldado tenta ajudar um cidadão iraquiano, que tem seu corpo repleto de bombas, mas a ajuda é em vão e o soldado diz: "Me desculpe, eu queria ajudar mas não posso", além da ambiguidade na fala, cabe pensar também sobre o que é essa guerra, que é tão distante para alguns e tão próxima para outros...


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros