terça-feira, 27 de abril de 2010

How i met your mother (CBS, desde 2005)

Antes de mais nada, aqui vai um SPOILER, a série já está no meio da sua 5ª temporada e o protagonista ainda não conheceu a mãe de seus filhos.
Continuando... How i met Your mother veio suprir a (minha) necessidade de séries água com açúcar como FRIENDS . Ela conta a historia de TED, ou melhor, TED conta para seus filhos a história de como conheceu a mãe deles, mas esse é apenas um pano de fundo para descobrirmos as partes mais interessantes da vida de TED.
A série não tem nada de inovador, mas tudo que ela tem de clichê, ela faz melhor. Sua montagem é evidente e descontraída e seus personagens são muito bem construídos. O protagonista consegue não ser nem o malandro conquistador e nem o bonzinho, ele é um equilíbrio perfeito, um homem comum que ainda assim consegue ser carismático. Diferente do que acontece na maioria das comédias românticas, em que o protagonista tenta alterar características de sua personalidade para conseguir o que quer, TED demonstra uma personalidade e continua com ela até o fim, é consistente e plausível.
Por ele estar contando suas memórias, a narração é recheada de flashbacks dentro de um grande flashback, em que vivemos o processo de relembrar o que aconteceu com o próprio personagem, isso implica, às vezes, ele se corrigir no meio de uma história, voltar atrás e contar uma nova versão ou até mesmo parar no meio de uma cena importante para dar uma explicação qualquer.
O fato da história estar sendo contada aos filhos é um ponto a mais, pois ele modifica elementos de sua juventude para não servir de mau exemplo, como ao invés de falar “maconha” ele fala “sanduiche”, então em muitas cenas vemos ele fumando sanduiches.
Com diálogos muito bem construídos, How I Met Your Mother explica o óbvio sobre uma nova perspectiva.
Apesar da curiosidade de saber como ele de fato conhece a mãe, não tenho pressa, pois sei que quando isso acontecer, o seriado acaba.
Então é isso... fica a dica!
HAVE YOU MET TED?


*Babi Fernandes é colaboradora do Audiovisueiros

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Os famosos e os duendes da morte (Esmir Filho, 2009)

O cinema sensitivo de Esmir Filho...

Mais do que ver e ouvir, é preciso sentir o 1° longa-metragem do diretor Esmir Filho (premiado com os curtas "Alguma coisa assim" e "Saliva").Sentir, no sentido de captar as sensações que o filme nos permite compartilhar: as sensações daqueles jovens gaúchos, da ponte mortal, da música, dos sentimentos reprimidos, do ambiente, da calmitude, do silêncio e do "cú", este último, utilizado no filme como espressão equivalente para o "fim do mundo". Repetindo a estética desenvolvida em "Saliva", Esmir segue novamente com essa preocupação em conciliar som e imagem na criação de sensações, seja de maneira diegética ou não-diegética: uma música (elemento presente e marcante no filme), um barulho de mar, um zumbido de grilo, uma locomotiva de trem, um diálogo em off, enfim, elementos que nos fazem, mesmo que por instantes, ser aqueles personagens, sem se fazer necessário o uso da câmera subjetiva.A história se passa numa cidade interiorana, no Rio Grande do Sul, onde um Menino (denominado simplesmente menino) se comunica com o restante do mundo pela internet e vive a espectativa e a espera de um show do Bob Dylan. Enquanto isso, temos a ponte, que serve literalmente como a chave para o suícidio, muitas pessoas se jogam dela de maneira inexplicável. Paralela a essa história, outro menino, Diego, convive com a morte (pela ponte) da irmã Jingle Jangle (codinome utilizado por ela na internet), possivelmente provocada pelo ex-namorado Julian. A ponte e a cidade atuam como personagens e afetam diretamente as decisões dos protagonistas, causando uma sensação de enclausuramento e asfixia, a cidade não permite que o menino saia para conseguir ver o show e ao mesmo tempo indica o caminho da ponte, num movimento sem escapatória, nos mostrando que o destino de todos naquela cidade é, inveitavelmente, a morte.

O filme preza por planos longos onde muitas vezes temos a ausência de diálogos, ficando somente com as expressões e com a trilha sonora (a se destacar a bela sequência em que Diego anda de bicicleta circundando o menino, enquanto este ouve música num aparelho eletrônico), e peca pelo uso excessivo de imagens em vídeo, mostrando o casal Jingle Jungle e Julian em uma espécie de documentário experimental.A direção, e principalmente a direção de atores, no filme, atua de maneira primorosa com um belo controle de cena e de narrativa, característica que Esmir já vinha desenvolvendo em seus dois últimos curtas. Além disso, a belíssima fotografia de Mauro Pinheiro, que além de utilizar muito bem o claro/escuro nos oferece ainda enquadramentos sensíveis e emotivos, como quando o Menino gira num gira-gira pela ótica de um enquadramento aéreo. Direção de arte e figurino se casam para estabelecer o padrão de interior e ajudar a criar o clima frio do sul brasileiro. Por último e não menos importante, a direção sonora do filme, feita por Martin Grignaschi, com quem Esmir já trabalhou em "Saliva", simplesmente maravilhosa e super bem trabalhada, não me lembro de algum exemplo recente no cinema brasileiro que possua um som tão bem pensado quanto este: a maneira como os ruídos e o som ambiente se interagem, a entrada e a saída da música, os diálogos e a utilização da voz off, enfim, tudo está encaixado e bem concatenado, numa concepção sonora bastante apurada.Contudo, "Os famosos e os Duendes da morte" é um filme difícil, que exige alto grau de concentração e aceitação, portanto será muito complicado atingir o grande público. Um projeto um tanto quanto ambicioso para alguém que estréia o primeiro longa, mas esperamos que este seja apenas o início de uma próspera carreira de direção para Esmir Filho.

*Renan Lima é editor do Audiovisueiros

domingo, 18 de abril de 2010

Ilha do Medo (Martin Scorsese, 2010)

Estrelando, Scorsese em "Thriller"

Depois de quase 4 anos sem dirigir uma ficção (Scorsese dirigiu "Os Infiltrados" em 2006 e realizou o documentário "Shine a Light", sobre os Rolling Stones, em 2008) Martin Scorsese retorna em grande estilo com o suspense "Ilha do Medo", Leonardo DiCaprio é o novo Robert DeNiro, formando uma parceria com o diretor em mais um trabalho. No Filme, DiCarpio interpreta Teddy Daniels, um policial que investiga o desaparecimento de uma paciente do hospital Shutter Island Ashecliffe, em Boston e conta com a ajuda de seu parceiro Chuck Aule para desvendar o mistério. A trama se passa no ano de 1954, num EUA pós-guerra, Daniels ainda é atormentado por traumas da Segunda Guerra, e aos poucos, conforme a narrativa caminha vamos descobrindo um pouco sobre esse personagem.Mesmo utilizando apenas uma ilha como "cenário" e ambientação da história, temos referências de outros lugares de outros anos que são fundamentais para o entendimento da trama, como Daniels em guerra na Alemanha Nazista e na companhia de sua mulher e filhos. Assim percebemos que durante muito tempo, ele tentou conciliar sua vida pós-traumática com a constituição de uma família, junção esta que não deu certo e culminou na morte de sua mulher e filhos. A "Ilha", utilizada como personagem no filme, cria o clima sufocante e claustrofóbico necessário para a imersão na história e causa ainda a sensação de um lugar finito, de onde não se sai e não se chega. Juntam-se a essa ilha as ótimas interpretações de DiCaprio e Ruffalo, o segundo, baseado muitas vezes nas feições e gestos do que no próprio diálogo. Fotografia e arte se conciliam para criar o ambiente sombrio e escuro, nos remetendo bastante a um clima "noir", trabalhando bastante com cores escuras e pálidas. Estes dois artifícios preparam o caminho para a montagem de uma velha conhecida e parceira absoluta de Scorsese, Thelma Schoonmaker, que por seus cortes descontínuos em determinados momentos do filme (que trabalham em função da narrativa, em cima da psiquê de Daniels), geram um certo estranhamento ao expectador mas que de nada atrapalha seu belo trabalho na criação de tensão do filme.

Nesse novo filme, Scorsese foge um pouco do cinema que está habituado a trabalhar um cinema realista, muitas vezes pautado na realidade e em biografias de personalidades reais e se arrisca com um "thriller", um suspense preso muitas vezes no sonho e na loucura de um personagem. Com um final surpreendente e momentos de muita tensão, "Ilha do Medo" se torna um ótimo filme, trabalhando a relação da memória e da loucura com extrema qualidade. Não deixem de ver...


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros

sexta-feira, 9 de abril de 2010

As Melhores Coisas do Mundo (Laís Bodanzky, 2010)

Aos jovens, com carinho...

Adolescência, sexualidade e liberdade: a junção desses 3 elementos é fundamental para se contar a história do novo filme de Laís Bodanzky, "As melhores coisas do mundo". Um filme jovem, feito para o público jovem, "As melhores" tráz a vida de Mano, um menino de 15 anos que encara as questões e os "problemas" de uma juventude agitada: a separação dos pais, a revolta do irmão, a paixão adolescente, os círculos de amizade, enfim, retrata o cotidiano do jovem em fase de transição, que tenta entender seus próprios "por quês", muitas vezes encarando a família como inimiga e tornando o diálogo impossível, mas por outro lado, buscando nos amigos a ajuda para resolver os próprios problemas. Junta-se a Mano, a menina Carol, madura para sua idade, ela partilha dos conflitos do amigo, tentando compreender melhor o seu papel no mundo em que está inserida, lidando ainda com uma paixão platônica por um professor da escola.
Com diálogos muito bem desenvolvidos e sinceras atuações (principalmente do casal protagonista, não atores), o filme carrega um tom de nostalgia e resgata possíveis traumas nos pós-adolescentes de hoje que acaba se refletindo nos espectadores de maneira muito pessoal e íntima. A fotografia realista de Mauro Pinheiro e a montagem dramática de Daniel Rezende dão o tom necessário para o agradável clima que o filme carrega.
As notas baixas ficam por conta dos personagens: Pedro, irmão de Mano, um adolescente bebezão, atormentado pelo abandono da namorada, irritado com o irmão, com a família e com o mundo; Marcelo, o professor de violão de Mano, que nos momentos de "respiro" do filme, não dá conta de tranquilizar o seu pupilo, colocando ainda mais dúvidas em sua cabeça; e Bruna, a lésbica do colégio, cuja personagem poderia ter sido melhor explorada durante toda a trama.
de qualquer forma, "As melhores coisas do mundo" torna-se um ótimo filme, tão b
om quanto o anterior, da mesma diretora (Chega de saudade), que dessa vez, tenta através da internet (o filme foi amplamente divulgado e comentado em grandes sites de relacionamento como Twitter e Facebook) a sua aproximação com o público jovem. Esperamos que o filme vá muito bem nas bilheterias e que "As melhores coisas do mundo" torne-se uma das "melhores coisas do cinema".


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros