quarta-feira, 21 de abril de 2010

Os famosos e os duendes da morte (Esmir Filho, 2009)

O cinema sensitivo de Esmir Filho...

Mais do que ver e ouvir, é preciso sentir o 1° longa-metragem do diretor Esmir Filho (premiado com os curtas "Alguma coisa assim" e "Saliva").Sentir, no sentido de captar as sensações que o filme nos permite compartilhar: as sensações daqueles jovens gaúchos, da ponte mortal, da música, dos sentimentos reprimidos, do ambiente, da calmitude, do silêncio e do "cú", este último, utilizado no filme como espressão equivalente para o "fim do mundo". Repetindo a estética desenvolvida em "Saliva", Esmir segue novamente com essa preocupação em conciliar som e imagem na criação de sensações, seja de maneira diegética ou não-diegética: uma música (elemento presente e marcante no filme), um barulho de mar, um zumbido de grilo, uma locomotiva de trem, um diálogo em off, enfim, elementos que nos fazem, mesmo que por instantes, ser aqueles personagens, sem se fazer necessário o uso da câmera subjetiva.A história se passa numa cidade interiorana, no Rio Grande do Sul, onde um Menino (denominado simplesmente menino) se comunica com o restante do mundo pela internet e vive a espectativa e a espera de um show do Bob Dylan. Enquanto isso, temos a ponte, que serve literalmente como a chave para o suícidio, muitas pessoas se jogam dela de maneira inexplicável. Paralela a essa história, outro menino, Diego, convive com a morte (pela ponte) da irmã Jingle Jangle (codinome utilizado por ela na internet), possivelmente provocada pelo ex-namorado Julian. A ponte e a cidade atuam como personagens e afetam diretamente as decisões dos protagonistas, causando uma sensação de enclausuramento e asfixia, a cidade não permite que o menino saia para conseguir ver o show e ao mesmo tempo indica o caminho da ponte, num movimento sem escapatória, nos mostrando que o destino de todos naquela cidade é, inveitavelmente, a morte.

O filme preza por planos longos onde muitas vezes temos a ausência de diálogos, ficando somente com as expressões e com a trilha sonora (a se destacar a bela sequência em que Diego anda de bicicleta circundando o menino, enquanto este ouve música num aparelho eletrônico), e peca pelo uso excessivo de imagens em vídeo, mostrando o casal Jingle Jungle e Julian em uma espécie de documentário experimental.A direção, e principalmente a direção de atores, no filme, atua de maneira primorosa com um belo controle de cena e de narrativa, característica que Esmir já vinha desenvolvendo em seus dois últimos curtas. Além disso, a belíssima fotografia de Mauro Pinheiro, que além de utilizar muito bem o claro/escuro nos oferece ainda enquadramentos sensíveis e emotivos, como quando o Menino gira num gira-gira pela ótica de um enquadramento aéreo. Direção de arte e figurino se casam para estabelecer o padrão de interior e ajudar a criar o clima frio do sul brasileiro. Por último e não menos importante, a direção sonora do filme, feita por Martin Grignaschi, com quem Esmir já trabalhou em "Saliva", simplesmente maravilhosa e super bem trabalhada, não me lembro de algum exemplo recente no cinema brasileiro que possua um som tão bem pensado quanto este: a maneira como os ruídos e o som ambiente se interagem, a entrada e a saída da música, os diálogos e a utilização da voz off, enfim, tudo está encaixado e bem concatenado, numa concepção sonora bastante apurada.Contudo, "Os famosos e os Duendes da morte" é um filme difícil, que exige alto grau de concentração e aceitação, portanto será muito complicado atingir o grande público. Um projeto um tanto quanto ambicioso para alguém que estréia o primeiro longa, mas esperamos que este seja apenas o início de uma próspera carreira de direção para Esmir Filho.

*Renan Lima é editor do Audiovisueiros

Um comentário:

Andrei Moyssiadis disse...

Concordo muito em relação ao som.