segunda-feira, 7 de junho de 2010

O mundo imaginário do Dr. Parnassus (Terry Gilliam, 2009)

Surreal e fantástico enriquecem último filme com a participação de Heath Ledger

O filme criou muita espectativa a partir da última aparição de Ledger no cinema e acabou gerando inclusive, algumas polêmicas pela troca de atores. O novo filme de Terry Gilliam (um dos criadores da série Monty Python), conta a história de Parnassus, um senhor de mais de 1000 anos, que fez um pacto com o diabo, onde teria que dar a ele sua filha, assim que esta completasse 16 anos. O senhor Parnassus comanda uma pequena trupe: um anão; um jovem menino e sua filha e eles apresentam seus espetáculos contando com a ajuda de um enorme espelho mágico, onde as pessoas podem entrar e se deliciar com suas mais profundas imaginações. Então, eles encontram Tony (Ledger), um rapaz em estado de amnésia que acaba incorporado ao grupo e passa a participar dos espetáculos. Parnassus faz então um outro pacto com o diabo para salvar sua filha e Tony acaba envolvido na situação, consciente ou inconscientemente. O filme tenta, num primeiro momento, se prender num campo mais realista, mesmo com os índices não reais: homem de mais de 1000 anos de idade, diabo, espelho mágico, o que temos é a apresentação de uma história clara e clássica, com uma estrutura completamente segura e óbvia. Mas, aos poucos, vamos embarcando nesse mundo do sonho, através da imaginação das pessoas que conhecem o espelho e também pelo choque de imaginações provacada por Tony (a regra do espelho não permite que duas pessoas o visitem juntas), que acaba servindo como mentor dos curiosos.A direção de arte impecável, explorando ao máximo esse ambiente anti-naturalista, com cores fortes e expressivas, além de objetos e figurinos extravagentes; a fotografia segue o mesmo ritmo, muitas vezes, utilizando movimentos de câmera impossíveis e enquadramentos diferenciados; a montagem altera momentos frenéticos com momentos calmos, em variação com a imaginação de cada personagem. A utilização de outros atores (Johhny Depp, Jude Law e Colin Farrel) para substiuição de Heath Ledger no papel de Tony, acabou casando com a narrativa do filme de uma maneira bastante interessante, ainda mais em se tratando de um campo do sonho e do surreal. O filme se utiliza de um recurso difundido por Alice (Lewis Carrol) e muito bem utilizado em "Matrix" (Irmãos Wachowski, 1999), quando, a partir de uma decisão simplória do personagem, ele escolhe que caminho seguir, se o da realidade ou o da ficção, ou vice-versa.Sobretudo, o filme não tem medo de errar explorando esse novo mundo, cheio de possibilidades, de uma maneira bastante intensa e muitas vezes até, exaustiva. O filme "não fica em cima do muro", ele se encontra com o surreal e parte em busca do imaginário de fato. Me lembrei bastante de um filme nacional bastante competente, "O contador de histórias" (Luis Villaça, 2009), que também apresenta essa premissa do mundo imaginário e inventado, mas que infelizmente não o explora a fundo, fica apenas na superfície, o que é uma pena, porque esse poder que o surreal exerce enriqueceria muito a narrativa. Mas me parece, que mais uma vez no cinema nacional, houve medo de se arriscar.Bom, Gilliam não teve medo e realizou um excelente filme, adeus querido Heath Ledger, você fará muita falta...


*Renan Lima é editor do Audiovisueiros

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