quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Scott Pilgrim Contra o Mundo (Edgar Wright, 2010)

Um épico de pequenas proporções.

Quando Bryan Lee O'Malley lançou a série de quadrinhos Scott Pilgrim em 2004, usando Toronto e um personagem principal meio loser e cabeça-oca como foco, nuvens não se dissiparam e o mundo não mudou para sempre. Apesar de ter atingido relativo sucesso no mundo das graphic novels indie, os leitores de HQs mais ávidos só achavam que a história era boa ou, quase sempre, 'divertida'. Scott só atingiu o pico do amor indie em 2010, quando O'Malley decidiu encerrar a publicação e Edgar Wright, cineasta que virou sensação underground com seu "Todo Mundo Quase Morto", prometia um épico lançamento de um igualmente épico filme baseado nos seis volumes da série.
O lançamento em si foi surpreendentemente fraco. Depois de todo um circo montado em torno de Michael Cera - o ator de um personagem só - e os 7 ex-namorados do mal durante a San Diego Comic-Con em julho, o filme só chegaria por aqui com entrada mais que modesta em três esparsas salas de cinema (em SP). Mas o épico ainda estava lá. Se você foi dos poucos que entrou nessas salas - ou dos muitos que não aguentou e baixou o BluRay Rip -, sabe do que eu estou falando.
A parte complicada de adaptar Scott Pilgrim vs. The World (dir. Edgar Wright, 2010) é que a série era... quadrinhos demais. As onomatopéias, o uso dos limites dos quadros, o visual preto e branco, a base e a essência que faziam a história ser como ela é. Transferir essas particularidades do quadrinho para a imagem em movimento é tarefa com potencial para virar um desastre de grandes proporções (Hulk?), mas o coelho na cartola de Edgar Wright era um inesperado fator complicação. Não contente em fazer um crossover entre dois meios, ele foi lá e colocou os videogames na massa.
Mais como uma referência à classe que Scott representa, a tal geração Y que só quer ser jovem para sempre e acaba vivendo num limbo de (in)significância, transformar a preciosa vidinha de um baixista sem perspectivas em metáfora de um jogo de videogame é o recurso que pontua não só o tom extremamente despretensioso (e sim, completamente pretensioso também) do filme como também a sensação de que nada acontece de verdade, mesmo que muita coisa aconteça ao mesmo tempo. O jogo existe de fato dentro da cabeça de Scott - e essa licença de tornar tudo tão literal como na cabeça de um jovem como nós acerta os corações juvenis em cheio.
Além do espetáculo visual que abraça as referências de quadrinhos, videogame, televisão (no genial momento Seinfeld), cinema e cultura pop de todo tipo em ritmo acelerado e elipses de cair o queixo, Scott Pilgrim Contra o Mundo retrata sem nenhum filtro de seriedade adulta o que é a atração, e não necessariamente o amor. Ramona Flowers pode ser o sentido que todo jovem procura na troca de olhares na balada, no poke do Facebook ou no corredor da faculdade. Ou simplesmente a princesa no castelo ao final da fase. Isso realmente não importa, observando o conjunto da obra. Aquilo tudo que você - nerd, indie, facilmente agradável - curte, misturado num filme que te deixa crer que, bem... o Mundo que você enfrenta depende, sobre todas as coisas, da sua cabeça.


*Maíra Testa é colaboradora do Audiovisueiros

2 comentários:

Gui Ferrari disse...

Logo depois que eu li o seu post eu baixei o filme e assisti! Gostei bastante! não li o gibi, mas agora fiquei até com vontade!

Mas não sou uma dessas pessoas que odeia adaptações, eu gosto delas! convergência dos meios! multiplicidade de publicação! eee

Renan Lima disse...

gostei muito, muito do filme. Conhecia um pouco a história, mas acho que a adaptação ficou ótima. Vendo pela segunda vez, uma coisa me incomodou: de todos os 7 ex temos alguma referência, seja contada por Ramona, ou pelos próprios, menos dos gêmeos. Quando eles surgem, tudo acontece meio rápido demais.

É assim também no quadrinho Ma?

Excelente texto...