segunda-feira, 19 de maio de 2008

Relação Cineasta e sua Obra...

“O espectador é aquele que acompanha a criação de sentido na imagem e se encanta com todos os outros sentidos que não foram propositalmente criados”.


Fazer um filme é sonho alto de muita gente. É maneira de espalhar ideais, expressar sentimentos, inventar teorias, deixar um pedaço seu para o resto do mundo; fazer arte. Fazer um filme, em nossa realidade autoral brasileira, é perseguir, batalhar, persistir, esperar durante sabe-se lá quantos anos por prêmios, parcerias e incentivos. Sendo assim, não é de se surpreender que muitas vezes se estabeleça uma íntima relação de paixão entre “criador e criatura”; cineasta e seu batalhado filme.

Foi só nesta última terça-feira, quando a diretora de cinema Lina Chamie apresentou para os alunos da faculdade seu segundo filme, “Via Láctea”, que me atentei para a complexidade e sensibilidade de tal fato.

Um cineasta cria, estuda, desenvolve, pensa, respira sua obra. Cada um tem suas pretensões e diferentes objetivos, mas inegavelmente compartilham o desejo de que seu filme seja visto e, de preferência, entendido pelo espectador. “Entender” talvez não seja a melhor palavra, “interpretar” seria uma escolha melhor.

Dentro de um bom filme nenhuma cena é irrelevante, nenhum enquadramento ou ruído é vazio de significado. O cineasta espalha suas intenções em cada um dos 24 fotogramas de segundo e cabe ao espectador absorver esses sentidos e moldar sua própria impressão sobre a obra como um todo. Se vinte mil pessoas assistem a um filme, no final, serão vinte mil interpretações, não necessariamente diferentes de sentido, mas cada uma única em sentimentos e sensações.

Pergunto-me, então, como deve se sentir esse tal “criador” no momento em que sua “criatura”, que antes existia coesa em seu imaginário, é mostrada a outras pessoas e submetida as suas interpretações. Ser compreendido ou elogiado há de inspirar grande sensação de satisfação enquanto as críticas ao mesmo tempo em que descontentam devem fazer refletir. É necessário um certo desprendimento da obra para que se possa visualizar sua repercussão. Um filme não pode ser considerado uma obra completamente fechada, ele começa no cineasta, se desenvolve na tela, mas acaba na cabeça de cada espectador.

*Jéssica Puga é colaboradora do Audiovisueiros

5 comentários:

Zan disse...

Jessica,

Gostei muito de suas colocações.
Sem dúvida, o cinema é arte a ser apreciada e portanto é vitrine sujeita à críticas.
Mas, antes de tudo penso que o que você colocou sobre o enamoramento do autor e sua obra é importante em qualquer área de nossas vidas.
É necessário que nos apaixonemos por nossas criações para depois mostrá-las ao mundo, porém termos esse desprendimento que você diz é fundamental e eu completaria o desprendimento ao nosso narcisismo, algo muito difícil de se encontrar nas pessoas em geral.

Zan

Maíra disse...

Que lindos!
Adorei o blog, Jay.
Eu tenho dois, ambos MUITO desatualizados.
Tem o Idéias Estranhas, que é meu mesmo [http://ideiasestranhas.blogspot.com], e o Janela, que é sobre a produção do curta-metragem [http://janelaocurta.blogspot.com.

Keep audiovisurockin'!
Beijos

Flavio Ferrari disse...

Curiosamente não me apego muito às minhas criações.
Escrever, para mim, é mais uma catarse.
Ao final do "parto" admiro o resultado com certa curiosidade, como se não fosse eu mesmo o autor.
E, aí, parto para outro ...

Glaura disse...

Me parece interessante a idéia de se criar uma única obra, que se transforma em milhares dentro dela mesma, sem que se perca a intenção primordial.
Um único parto, dando à luz múltiplos gêmeos, que seguirão histórias individuais, sem a perda de sua origem...

zuleica-poesia disse...

Também gostei das suas colocações.Como "fã" de cinema, espero que você e seus companheiros consigam excelentes resultados com seus trabalhos.