sábado, 17 de julho de 2010

O Pequeno Nicolau (Laurent Tirard, 2009)

e a fábula da infância.

Conversando com franceses dias desses, soube que existem dois livros que praticamente toda criança na França acaba lendo - a popular fábrica de lágrimas "O Pequeno Príncipe" e a série de quadrinhos "O Pequeno Nicolau", de René Goscinny (o mesmo das histórias de Astérix). O livro de Saint-Exupéry aborda em profundidade a inocência e propõe reflexões filosóficas sobre a pureza, enquanto os livros de Goscinny mergulham no imaginário pueril das crianças quase que literalmente. No ano passado, a série ganhou uma adaptação cinematográfica produzida na França, que entrou em cartaz no Brasil no início do mês.
Mantendo o título original dos quadrinhos, Le Petit Nicolas (2009, dir. Laurent Tirard) conta a história de Nicolau - a escolha da tradução de todos os nomes de personagens indica algum apelo, mesmo que esquecido, ao público infantil -, um menino que tem a vida que gostaria de ter: uma boa família, uma professora amável e colegas divertidos. Nicolau é tão feliz com a maneira como as coisas estão que mal consegue se decidir sobre o que quer ser quando crescer. Para ele, basta que tudo continue igual.
É quando o mundo dos adultos, que Nicolau e os colegas de sua idade tanto custam a entender, dá a ele sinais de que as mudanças estão por vir - e são muitas! Acreditando que sua mãe pode estar grávida de um irmãozinho e que seus pais farão de tudo para livrar-se do filho mais velho antes do bebê nascer, ele e seus amigos começam a bolar planos para salvar o garoto e acabar com a ameaça. A brincadeira realidade/imaginação entre o que Nicolau pensa e o que as coisas são de fato dá o tom da narrativa.
É justamente nesse sentido que a direção leve de Laurent Tirard mantém o espectador imerso nessa aura de inocência com que o garoto enxerga o mundo.
Apresentando a visão de Nicolau (onde tudo pode ser interpretado pelos olhos da criança que não compreende os assuntos e preocupações dos mais velhos) e também a versão dos adultos diante dos fatos, ainda que contidos no mesmo universo agradavelmente colorido (na direção de arte impecável que retrata uma França cotidiana da década de 50), o filme garante risos e situações divertidas entrando em temas que fazem qualquer marmanjo se identificar (da rivalidade meninos X meninas até as reuniões da turminha do bairro). O clima lembra "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain", com inserções pontuais para apresentar personagens e a abordagem quase lúdica do universo do menino.
É preciso, no entanto, abrir os horizontes; "O Pequeno Nicolau" é uma fábula de inocência despretensiosa, sem grandes objetivos de fazer pensar como "O Pequeno Príncipe" o fazia nos livros. Trata-se de uma pequena amostra de como a mente de uma criança funciona e de como os adultos, algum dia, deixam de compreender o que era pensar como uma. Mas nada de lágrimas, nostalgia ou sentimentos descortinados - vale mais abraçar a noção de que esse é um filme para crianças, sim, mas onde qualquer um pode rir e se divertir do mesmo jeito. Para uma boa tarde de domingo no cinema.


*Maíra Testa é colaboradora do Audiovisueiros

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